Presidente Lula assina Projeto de Lei Antifacção

Texto deve seguir para análise do Congresso

Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta sexta-feira (31), o projeto de lei Antifacção para ser encaminhado ao Congresso Nacional ainda hoje em regime de urgência.

A Secretaria de Comunicação do governo confirmou a informação nesta tarde à imprensa, havendo apenas “pequenos ajustes de redação” ao texto que foi elaborado pelo Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

A proposta é levada ao Legislativo depois dos resultados da Operação Contenção, que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro.

Conforme havia sido informado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, a proposta inclui agravar a pena para lideranças e integrantes de organizações criminosas.

Os condenados pelo crime de “organização criminosa qualificada”, que passaria a ser um novo tipo penal, poderão receber a pena de 30 anos de prisão.

O texto prevê ainda a criação de um banco de dados nacional para ter uma espécie de catálogo de informações dessas facções com a finalidade de reunir informações estratégicas para investigação e rastreamento desses grupos.

Outro ponto é adotar ações para diminuir os recursos financeiros das facções de maneira mais rápida.

Um exemplo seria a apreensão de bens, direitos ou valores do investigado, inclusive durante o curso do inquérito ou quando houver suspeita de que sejam produtos ou instrumento de prática de crimes.

Infiltração

Outra ação prevista pela proposta é a de infiltração de policiais e colaboradores na organização criminosa durante a investigação e até a possibilidade de criar pessoas jurídicas fictícias para facilitar a infiltração na organização criminosa

O projeto de lei ainda apresenta outra possibilidade, durante a investigação, ao autorizar o monitoramento dos encontros realizados entre presos provisórios ou condenados integrantes de organização criminosas.

Penas de prisão

A proposta defende a necessidade de aumento de pena da organização criminosa simples, de 3 a 8 anos de prisão para de 5 a 10 anos. O agravamento ainda maior (de dois terços ao dobro) das penas ocorreria nos casos do tipo penal caracterizado como “organização criminosa qualificada”.

Entre os exemplos dessa característica, estão nos casos em que ficar comprovado o aliciamento de criança ou adolescente para o crime, ou mesmo quando a ação for funcionário público. Outra “qualificação” do crime organizado pode ser entendida nos casos de exercício de domínio territorial ou prisional pela organização criminosa.

São ainda situações de agravamento de pena o uso de arma de fogo de uso restrito ou proibido e quando houver morte ou lesão corporal de agente de segurança pública. Pelo projeto, o crime tipificado como de organização criminosa qualificada passa a ser considerado hediondo, ou seja, inafiançável.

Domínio territorial

O domínio territorial pelo crime organizado ocorre, conforme exemplifica o ministro da Justiça, em comunidades dominadas por facções, o que deixa os moradores vulneráveis.

Banco de dados

Os destaques e bastidores da política do Rio Grande do Sul, quinzenalmente, às terças-feiras

Em relação ao banco de dados, a intenção é ter o máximo de detalhes, inclusive até o DNA das pessoas envolvidas com o crime organizado.

Brigada Militar adquire primeiras viaturas 100% elétricas da corporação

Um dos veículos já está em circulação pelas ruas de Porto Alegre; o segundo deve chegar na próxima semana

Ian Tâmbara GZH

A Brigada Militar adquiriu, neste mês, as duas primeiras viaturas 100% elétricas da corporação. Uma delas, inclusive, já está circulando pelas ruas de Porto Alegre nos últimos dias. O veículo, um BYD Yuan Pro, foi comprado com recursos oriundos da Justiça Estadual e está sendo utilizado pelo 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM).

Além disso, uma segunda viatura do mesmo modelo deve chegar na semana que vem, adquirida com verba da Justiça Federal. Uma solenidade deve ocorrer ainda no mês de novembro para oficializar a entrega das viaturas.

Duas estações de carregamento foram instaladas na sede do batalhão. Segundo o comandante do 9º BPM, tenente-coronel Hermes Völker, ambos os veículos têm autonomia de até 380 quilômetros, e a ideia é empregá-los em atividades gerais de patrulhamento:

— Hoje, indico para atividade como patrulha comercial, (ocorrências de) Maria da Penha, monitoramento escolar, Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), enfim, para atividades que vão durar no máximo 12 horas, para poder carregar à noite — explica Völker.

No ano passado, a Brigada Militar já havia adquirido uma viatura híbrida, modelo BYD Song Pro. Na ocasião, a compra do veículo ocorreu através de verba oriunda da Justiça Federal. Na época, foi comprado pelo 21º batalhão, localizado no bairro Restinga, na zona sul da Capital, que era comandado por Völker naquela oportunidade.

Na disputa por investimentos

Além da entrega oficial dos novos veículos, o mês de novembro também será marcado para o 9º BPM pela disputa de um edital para um projeto de eficiência energética, que destina recursos para investimentos nessa área. Ao todo, a proposta vencedora receberá cerca de R$ 2 milhões.

O projeto da Brigada compreende a destinação de placas solares para o 9º BPM. São 350 placas que dariam conta de 85% da energia gasta atualmente na sede do batalhão. 

A ideia também prevê a substituição de todos os 33 equipamentos de ar-condicionado que dão conta de mais 15% da energia consumida no local. O resultado do edital deve ser revelado no dia 17 de novembro.

Quem são os policiais mortos da operação no Rio de Janeiro

Entre os 13 agentes de Segurança Pública feridos está um delegado que teve perna amputada após ser atingido por bala de fuzil

Humberto Trezzi GZH

A mais mortífera operação policial da história brasileira, que resultou em 121 mortos na terça-feira (28), foi também letal para policiais envolvidos nela. Dois agentes da Polícia Civil e dois PMs do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foram mortos durante a ação de ocupação de dezenas de favelas dos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, ocupadas pelo Comando Vermelho.

Outros 13 policiais foram baleados.

Os mortos

Policiais civis

Marcus Vinícius Cardoso, o Máskara, 51 anos: era inspetor e foi promovido a comissário na véspera da operação contra o Comando Vermelho. Ele ingressou na corporação em 1999, na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), onde ganhou o apelido por lembrar o personagem do filme estrelado por Jim Carrey. Entre seus feitos mais notórios está o de investigar e ajudar a prender Elias Maluco, líder do CV que torturou e matou o jornalista Tim Lopes.

Marcus trabalhou também na 18ª DP (Praça da Bandeira) e chefiava, atualmente, o Setor de Investigações da 53ª DP (Mesquita).

Rodrigo Velloso Cabral, 34 anos: inspetor da 39ª DP (Pavuna), estava na Polícia Civil havia menos de dois meses. Ele era lotado numa das regiões mais violentas da Zona Norte, responsável por investigações nos complexos do Chapadão e da Pedreira. Deixa esposa e uma filha pequena. Nas redes sociais, a esposa de Rodrigo prestou homenagem ao marido: 

“Hoje, a dor da sua ausência é imensurável e nos rasga a alma, mas preciso encontrar forças para te dizer adeus e honrar a memória de quem você foi: um herói em sua profissão e um gigante em nossa vida… Sua dedicação como policial civil era a prova do seu coração corajoso. Você partiu cumprindo sua missão de proteger a sociedade, e isso é um legado de bravura que jamais será esquecido. Você era um homem de princípios, de fibra e de uma coragem que inspirava a todos.”

De acordo com a Polícia Civil, Máskara e Cabral foram atingidos logo após a entrada das equipes ao Complexo da Penha, quando traficantes do Comando Vermelho reagiram a tiros e montaram barricadas em chamas. Eles chegaram a ser levados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, mas não resistiram.

Policiais militares

Cleiton Serafim Gonçalves, 42 anos: era terceiro sargento do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e ingressou na corporação em 2008. Deixa esposa e uma filha.

Heber Carvalho da Fonseca, 39 anos: também terceiro sargento do Bope, ele deixa esposa, dois filhos e um enteado. 

Os dois PMs foram baleados com intervalo de minutos, em confrontos na Vila Cruzeiro, também durante o avanço das tropas pela comunidade. Foram socorridos e encaminhados ao Hospital Getúlio Vargas, mas morreram por causa dos ferimentos.

Os feridos

Dos 13 servidores da Segurança Pública atingidos, nove são policiais militares. Eles foram encaminhados ao Hospital Central da PM (HCPM), no bairro do Estácio. De acordo com informações da corporação, dois permanecem em estado grave e outros seguem estáveis, mas em observação. Os nomes e patentes não foram divulgados.

Os outros quatro feridos são da Polícia Civil. O caso mais delicado é o do delegado Bernardo Leal Annes Dias, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). Ele foi baleado na veia femoral, perdeu muito sangue e precisou passar por cirurgia de emergência no Hospital Samaritano, na Barra da Tijuca. Durante o procedimento, os médicos amputaram uma perna para salvar tentar sua vida.

A notícia causou forte comoção entre colegas. Nas redes sociais, policiais prestaram solidariedade ao delegado e destacaram sua dedicação no combate ao tráfico. Familiares organizam vigílias em frente aos hospitais, pedindo orações pela recuperação de todos os feridos.

IBCM promove momento de acolhimento e autoestima em evento do Outubro Rosa

A IBCM Saúde realizou um evento especial em alusão ao Outubro Rosa, reunindo mulheres que estão em tratamento ou que já venceram o câncer de mama. O encontro teve como propósito promover a saúde, valorizar essas mulheres fortes e mostrar que vale a pena buscar o tratamento e o cuidado contínuo.

Com um ambiente preparado com carinho, o evento contou com sessão de maquiagem, ensaio fotográfico, roda de conversa e um café da tarde acolhedor. Cada detalhe foi pensado para que as participantes se sentissem amadas, acolhidas e lembradas de que ainda há muita vida e beleza em cada fase da jornada.

Mais do que um evento, foi um encontro de histórias reais, de fé, superação e coragem. Ao abrir espaço para que essas mulheres compartilhassem suas vivências, a IBCM quis transmitir uma mensagem clara: o câncer de mama não define quem elas são. Elas são muito mais do que a doença, são força, esperança e inspiração.

A ação também reforçou a importância da prevenção e do diagnóstico precoce, fundamentais para salvar vidas. O autoexame, a mamografia e o acompanhamento médico regular são aliados essenciais na luta contra o câncer de mama. Cuidar-se é um ato de amor e um passo essencial para a saúde e o futuro.

A IBCM Saúde reafirma, com essa iniciativa, seu compromisso em cuidar com propósito, olhando não apenas para a saúde física, mas também para o bem-estar emocional. Porque cada mulher merece ser vista, ouvida e lembrada de que a vida continua, e que ela é, sim, digna de florescer todos os dias.

PEC da Segurança avança e passa por mudanças após debate entre governo e Congresso

Após a megaoperação que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva intensificaram a campanha em prol da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública como uma das principais ações para combater o avanço das facções criminosas no país. Desde que foi formulada pela gestão do ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, há mais de 18 meses, a PEC superou divergências dentro do próprio governo e hoje é alvo de críticas de parlamentares e governadores da oposição.

Enviada em abril ao Congresso Nacional, a proposta está nas mãos do relator, deputado Mendonça Filho (União-PE), que minimizou a cobrança por celeridade após a operação mais letal do Rio. Segundo o parlamentar, a medida “não tem capacidade de mudar o status quo” do estado e precisa ainda passar por uma “discussão aprofundada”.

O que prevê a PEC da Segurança?

A essência da PEC é ampliar o papel do governo federal para formular políticas da área e dar mais instrumentos para que o consiga coordená-las. Para isso, o texto altera artigos da Constituição que definem a competência de cada poder na segurança pública.

Além disso, também inclui o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que vigora por meio de uma lei ordinária desde 2018, na Constituição, a exemplo do que acontece com o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Nacional de Educação.

Na visão de Lewandowski, isso vai dar mais força para que as forças policiais atuem de forma integrada com uma base de dados e procedimentos padronizados — o que não ocorre hoje.

Não interferência nos Estados

Diante de críticas de governadores e da oposição que a PEC usurpava poderes de estados, o Ministério da Justiça acrescentou um parágrafo para reforçar que a União não pretende invadir prerrogativas que hoje são dos governos estaduais. O texto diz que a PEC “não exclui” as “competências comuns e concorrentes dos demais entes federativos relativas à segurança pública e à defesa social, nem restringem a subordinação das polícias militares, civis e penais e dos corpos de bombeiros militares aos governadores dos Estados e do Distrito Federal”.

Um sistema criado para unir, mas que segue fragmentado

O Susp foi criado em 2018, durante o governo de Michel Temer, com a Lei nº 13.675/2018. A intenção era simples na teoria e ambiciosa na prática: unificar políticas e operações entre as forças federais, estaduais e municipais, com base em troca de dados, planejamento conjunto e coordenação centralizada pelo governo federal. No entanto, sete anos depois, o sistema ainda enfrenta entraves operacionais. Faltam padronização nos fluxos de informação, integração de bancos de dados e planejamento conjunto de ações entre polícias, Ministério Público, Judiciário e guardas municipais. Muitos Estados sequer estruturaram seus conselhos e planos estaduais de segurança, o que compromete a execução integrada das políticas. O jurista Eduardo Pazinato complementa que, na prática, o Susp vem sendo implementado de forma gradual, a partir de induções do governo federal. O que ocorre é uma adesão voluntária. A União lança programas e exige contrapartidas, como planos municipais de segurança, para que Estados e prefeituras recebam recursos, observa.

O desafio de tornar o Susp constitucional

O desafio de tornar o Susp constitucional Diante das dificuldades, o governo federal decidiu reforçar o Susp pela via constitucional. A PEC da Segurança Pública, enviada ao Congresso em abril, propõe incluir o sistema na Constituição Federal, garantindo continuidade das políticas, obrigatoriedade da cooperação federativa e segurança jurídica nas atribuições de cada ente. O objetivo é criar uma base sólida para que haja coordenação de esforços, compartilhamento de dados e continuidade das políticas, independentemente de mudanças de governo. Além de constitucionalizar o Susp, a proposta também atualiza as competências da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal e inclui no texto constitucional o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional. Para o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, a medida é essencial para enfrentar o crime organizado, que atua de forma interestadual e transnacional.

Combater o crime organizado é dever federal, não escolha política.

Marco Antônio Moura dos Santos[1]


              Já faz alguns anos que estamos tratando do crime organizado, dos grupos que atuam com estrutura política, empresarial, paramilitar; utilizando-se da corrupção, das ações “terroristas”, dominando territórios, rotas de drogas, controlando ações nas fronteiras e “influenciando” a política local (não apenas em cidades).  Nesse cenário apresenta-se a questão: até que ponto o governo federal tem a responsabilidade (o dever), e não apenas a opção, de agir?

A solução para este importante questionamento está em nossa Carta Magna. O artigo 144 da Constituição de 1988 estabelece de forma clara e precisa que a segurança pública é uma função do Estado, incumbida a todos, e realizada com o objetivo de manter a ordem pública e proteger as pessoas e o patrimônio. Esta norma não é uma mera diretriz, é um dever constitucional para todas as partes federadas da Federação Brasileira, incluindo a União.

Mais do que isso, a Constituição determina que à Polícia Federal compete apurar infrações penais contra a ordem política e social, os bens e interesses da União, bem como contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei.  Ou seja, não se trata de escolha política: a União deve agir sempre que o crime ultrapassar limites estaduais ou envolver interesses nacionais.

E para estruturar essa integração, a Lei nº 13.675/2018, que criou o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), determinou que a União tem o dever de “coordenar e articular, de forma integrada, a política nacional de segurança pública”. Isso inclui o apoio técnico, financeiro e operacional aos estados, a promoção de operações conjuntas e o compartilhamento de inteligência entre forças policiais.[2] Em outras palavras, a coordenação federal não é uma faculdade, é um dever de Estado.

Por outro lado, é importante lembrar que a União não pode substituir os Estados em suas atribuições. O policiamento ostensivo e a investigação de crimes comuns continuam sob responsabilidade das Polícias Militares e Civis. A atuação federal é de coordenação e integração, não de substituição. Exceções só ocorrem mediante intervenção federal, como a que ocorreu no Rio de Janeiro em 2018, ou sob decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)[3].

Diante da escalada da criminalidade organizada e das conexões que ultrapassam limites estaduais e fronteiras nacionais, torna-se inadiável que o governo federal exerça plenamente essa função constitucional de coordenação. Quando o crime ultrapassa a competência legal e territorial das Unidades da Federação, articulando-se nacionalmente, então a resposta também precisa ser no mesmo nível.

A omissão federal em liderar e integrar esforços não é apenas uma falha política. Ela é o descumprimento de uma obrigação constitucional. E, em um país onde o crime já atua como uma confederação articulada, a segurança pública não pode continuar sendo tratada como uma soma de ilhas autônomas. Mais do que recursos, o Brasil precisa de direção, estratégia e coordenação nacional. É isso que a Constituição exige, e é isso que a sociedade espera! Resultados! Continuamos com narrativas e com falta de ações coordenadas, integradas e de responsabilidades constitucionais devidas. Infelizmente, enquanto isso, o crime organizado continua gerando mortes de civis, domínio de áreas, controle de populações e a morte de integrantes dos órgãos de Segurança Pública que tombam no cumprimento do dever. Não podemos mais ficar criando desculpas, para gerar “soluções mágicas, repaginadas, com objetivos muito claros para quem quer ver, embaçados para quem está envolvido no problema, no contexto político ou ideológico, que permeia a nossa sociedade.”


[1] Coronel QOEM Reserva da Brigada Militar e especialista em Segurança Pública (PUC)

[2] Na prática, isso se traduz em ações como o Programa VIGIA, que atua nas fronteiras; as Forças-Tarefas de Combate ao Crime Organizado (FTCCO) e o Centro de Cooperação Policial Internacional, que mantém interlocução com agências de inteligência. Também é papel da União financiar e integrar sistemas de informação, apoiar investigações complexas e fornecer tecnologia de ponta às polícias estaduais.

[3] Decreto n.º 9.288, de 16 de fevereiro de 2018, outorgado pelo Presidente da República, com publicação no Diário Oficial da União no mesmo dia.

Comando Vermelho – Poder Paralelo e o Contrato Social Rompido

Nos dias recentes em que a Polícia Militar, o BOPE e a Polícia Civil deflagraram operações de larga escala nos morros da Penha e do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, resultando em cerca de cento e vinte mortos, o país assistiu a mais do que uma ação policial: testemunhou a disputa pela soberania dentro do próprio território. O Estado, que deveria ser o garantidor do pacto civilizatório, reaparece ali como força de choque, tentando retomar o que perdeu: a autoridade sobre a lei e sobre a paz social.

Para Thomas Hobbes, o homem nasce num estado de natureza marcado pela guerra de todos contra todos; é o medo que o leva a firmar um contrato social e entregar ao soberano o monopólio da força. Rousseau, ao contrário, via o homem como naturalmente bom, corrompido pela sociedade e suas desigualdades. No cenário dos morros cariocas, essas duas visões se entrelaçam: a ausência do Estado devolve o homem ao caos hobbesiano, e a violência e a exclusão o corrompem, como advertia Rousseau.

Enquanto isso, o poder real muitas vezes pertence a outro Estado, o do crime. Facções como o Comando Vermelho impõem “mensalidades” sobre moto-taxistas, vendedores de botijão de gás, operadores de luz e “gatonet”, e até comerciantes de rua. Criam um sistema de tributação paralela, coercitiva e estável. Pierre-Joseph Proudhon, crítico da propriedade e das hierarquias opressoras, dizia que “todo poder político é essencialmente um roubo institucionalizado”. No caso brasileiro, o roubo se institucionalizou do avesso: não por meio do Estado formal, mas de uma estrutura criminosa que se apresenta como governo alternativo, cobra, pune, protege e legisla à margem da lei.

O episódio das mortes no Rio revelou também a guerra simbólica. Os criminosos abatidos, muitos deles fortemente armados, foram despidos de seus uniformes paramilitares e enfileirados nas ruas, numa tentativa de exibi-los como civis inocentes. A estratégia lembra a usada pelo grupo Hamas, que retira os trajes de combate de seus militantes mortos para mostrá-los à opinião pública como vítimas indefesas. A manipulação da imagem é, hoje, um campo de batalha tão relevante quanto o confronto em si.

No Ceará, outro sintoma da falência do contrato social se manifesta. Facções criminosas expulsam famílias inteiras de conjuntos habitacionais, e, em vez de garantir a permanência dos moradores em suas casas, a Polícia Militar tem oferecido viaturas para transportá-los em fuga. O Estado, que deveria proteger e assegurar o território, atua como agente logístico da derrota: ajuda o cidadão a sair, mas não a permanecer. É o reconhecimento tácito de que perdeu o controle de áreas onde o crime exerce a soberania.

A lição de Hobbes continua viva: sem uma autoridade legítima e eficaz, o caos reina. Mas Rousseau também permanece atual, pois uma sociedade que abandona seus cidadãos à mercê do medo e da miséria os corrompe, não pela natureza, mas pela exclusão. E Pierre-Joseph Proudhon nos alerta: quando o poder se dissocia da legitimidade, seja estatal ou paralelo, ele se transforma em tirania, mudando apenas a face de quem oprime.

O desafio brasileiro é, portanto, duplo: restaurar a autoridade legítima que contenha a violência, como queria Hobbes, e reconstruir a sociedade justa e inclusiva que Rousseau imaginava, sem permitir que o crime se converta em gestor de vidas, como denunciaria Proudhon. Só assim as operações policiais deixarão de ser episódios de guerra civil e se tornarão o início da reconstrução de uma cidadania que o Brasil, há muito, negou a quem vive nas margens.

Governo do RS oferece apoio das forças da segurança gaúchas ao RJ

Eduardo Leite ligou para o governador fluminense, Cláudio Castro, nesta quarta-feira (29)

Gabriel Jacobsen GZH

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, repetiu na manhã desta quarta-feira (29) o gesto de outros governadores do país e ofereceu ao Rio de Janeiro apoio de forças de segurança pública gaúchas. A ajuda foi ofertada em uma ligação do líder do Executivo gaúcho para o governador fluminense, Cláudio Castro.

A comunicação ocorreu um dia após uma megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha que se revelou a mais letal da história do Estado do Rio. Segundo a Defensoria Pública fluminense, foram mais de 130 mortos.

Um grupo de governadores de direita que tenta participar do debate nacional sobre segurança pública realizou uma reunião virtual na manhã desta quarta. Por estar em outro compromisso de governo, Leite não integrou o encontro realizado a distância, mas fez questão de falar diretamente com Castro.

O líder do Executivo de Santa Catarina, Jorginho Mello, articula a realização de uma reunião presencial dos governadores do Sul e Sudeste nesta quinta-feira (30) à tarde no Rio de Janeiro. Caso a reunião se confirme, há possibilidade de o governador gaúcho alterar a agenda e participar da atividade.

Além de Mello e Leite, buscam participar politicamente do debate nacional sobre segurança pública o governador de Goiás, Ronaldo Caiado; o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas; e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema.

Assembleia do RS aprova aumento no número de CCs externos de deputados

Funcionários não precisam comparecer à sede do parlamento e trabalham nas bases eleitorais dos políticos

Gabriel Jacobsen GZH

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, na tarde desta terça-feira (28), um projeto de resolução que aumenta de seis para oito o total de cargos de confiança (CCs) externos que os deputados podem nomear. São funcionários contratados que atuam nas bases eleitorais dos deputados, e não precisam comparecer à sede da Assembleia.

Presidente da Casa, deputado Pepe Vargas (PT), argumenta que a medida vai reduzir custos:

— O servidor que trabalha fora da sede, ele não tem direito a diária. Se ele trabalha aqui e precisa se deslocar para o Interior, nós temos que pagar diária. Então isso vai trazer uma economia às despesas de pessoal da Assembleia Legislativa com diárias.

A nova regra da AL prevê ainda que os CCs externos terão que, mensalmente, apresentar um relatório de atividades e assinar um documento em que se comprometem a não ter outros trabalhos além do de assessor.

No total, os deputados têm direito a nomear entre nove e 17 CCs — o número varia conforme o nível salarial do assessor.

A representação exige mais do que silêncio e ausência!!!??? Ou não???!!!

Marco Antônio Moura dos Santos[1]

A partir do artigo de Giane Guerra “A inexplicável ausência de deputados na briga pelo sul”[2], emerge um antigo problema histórico da política gaúcha: a notória carência de representação e liderança parlamentar na luta pela defesa dos interesses regionais. O silêncio e falta de presença de toda a delegação com 31 deputados federais, conforme relatado pela jornalista, em um ato parlamentar formal em favor de um fundo constitucional para as regiões Sul e Sudeste, para ajustar o pacto federativo, dificilmente pode ser classificado como descuido; é um reflexo da realidade política, que têm gerado o enfraquecimento progressivo do Rio Grande do Sul no cenário nacional ao longo dos anos, por culpa de nossa própria representação ou falta dela.

Ter um lugar no Congresso Nacional é uma responsabilidade que vai além da simples presença física; é de desempenhar o papel e poder do povo, sustentando suas esperanças e aspirações. O fato de não haver deputados gaúchos em uma sessão de tamanha importância não apenas desnuda uma ausência de representação, mas também a perda de poder e legitimidade que são fundamentais para as relações federativas. Isso, por sua vez, aprofunda o ceticismo da população quanto a eficácia e o funcionamento real do sistema partidário.

Este fato reflete não apenas fraquezas das agendas políticas, mas também as restrições estruturais de coordenação de estratégias e da missão pública de representação gaúcha. Em contraste, observa-se a situação oposta do sul para o Norte e Nordeste, regiões em que seus representantes que têm conseguido estabelecer frentes parlamentares robustas, valendo-se das oportunidades, sem hesitações ou disputas.

Embora a Constituição de 1988 tenha instituído fundos direcionados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste com o intuito de corrigir desigualdades, é evidente que o Sul também enfrenta desafios próprios, desde infraestrutura obsoleta até questões de migração industrial. Além disso, os baixos índices de investimento federal em planejamento regional e os obstáculos impostos pela transição energética atual também são preocupações legítimas. Essa realidade revelando uma “desistência”, por parte da bancada gaúcha, em pleitear participação em um novo fundo constitucional, perpetuando sua paralisia em um cenário federativo que demanda decisões econômicas urgentes, realmente é preocupante!

Por isso é crucial provocar uma reflexão na mentalidade dos representantes gaúchos sobre o seu papel nesta dinâmica estatal. Nosso tempo requer uma união firme contra qualquer delegação inadequada de poderes políticos, independentemente das diferenças partidárias, focalizando numa agenda regionalista que seja respaldada por um projeto estratégico claro e elaborado com a participação de todos os interessados.

E para que isso aconteça, são necessárias algumas ações fundamentais: (1) fortalecer um Fórum Permanente Gaúcho, com agendas amplas e definidas; (2) estabelecer mecanismos de responsabilidade pública claros, que detalhem as participações dos deputados em trabalhos legislativos; (3) reforçar a presença do estado, junto aos ministérios; assim como (4) formar e permitir que novos líderes conscientes das complexidades atuais possam defendê-las estrategicamente.

A crítica levantada por Giane Guerra expressa mais do que observações jornalísticas! Ela é alimento para a reflexão sobre o nosso papel enquanto cidadãos e dos representantes políticos que escolhemos. Por isso o gap representativo chama tanto a atenção desta maneira, pois também é o reflexo de uma apatia social generalizada em relação às questões políticas. E por isso é urgente reverter este infeliz estado de coisas, além de restabelecer o forte laço entre a sociedade e seus membros, reivindicando o sentido de pertencimento que marca a cultura do Rio Grande do Sul.

O Estado, admirado por sua ousadia, criatividade e resiliência, precisa abandonar a inação e letargia! Este é o momento de transformar a indignação em projetos reais, unindo forças para que os interesses legítimos dos gaúchos sejam realmente atendidos no coração da República.

É hora de questionar a formação da atual bancada, propor as mudanças necessárias e redefinir o significado da representatividade federal do Rio Grande do Sul.
Não podemos permanecer inertes! É tempo de agir e de reconstruir a presença política de um povo que sempre se fez ouvir. E não apenas acreditar em narrativas.

A representação exige mais do que silêncio e ausência!!!??? Ou não???!!!


[1] Coronel da Reserva da Brigada Militar e Especialista em Integração e MERCOSUL (UFRGS)

[2]Coluna de Giane Guerra (Zero Hora, “Inexplicável ausência de deputados na briga pelo Sul”). In: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/giane-guerra/noticia/2025/10/faltou-tempo-nenhum-deputado-do-rs-foi-a-criacao-da-comissao-para-buscar-fundo-de-financiamento-para-o-sul-cmh552x1q024i015gd1atpx7i.html#:~:text=Canal%20da%20Giane%20Guerra:%20saiba,not%C3%ADcias%20de%20economia%20no%20WhatsApp