Ano eleitoral: reformas sob pressão e instituições em modo de contenção

Marco Antônio Moura dos Santos[1]

A abertura dos trabalhos do Legislativo e do Judiciário revelou mais do que um rito formal. Os discursos revelam um país que ingressa em ano eleitoral, variável que altera prioridades, ritmos decisórios e comportamentos entre os Poderes, influenciando a dinâmica social e a política de forma mais ampla. O calendário eleitoral nacionaliza o debate, ideologiza reformas e intensifica a disputa pelo controle da narrativa estatal. O que se projeta, portanto, não é apenas um ano legislativo movimentado, mas um período de reposicionamento estratégico das instituições.

A segurança pública deixa de ocupar apenas o campo das demandas sociais para assumir centralidade nas campanhas eleitorais. De política pública estruturante, transforma-se em eixo de campanha. A Proposta de Emenda Constitucional da Segurança[2] passa a ser disputada não apenas por seu mérito técnico, mas pelo capital político que pode gerar. O Governo Federal busca protagonismo coordenador; governadores defendem autonomia operacional; enquanto o Parlamento tenta equilibrar financiamento e competências. O avanço é provável, ainda que calibrado para evitar concentração excessiva de poder na União, tema sensível em ano eleitoral.

Paralelamente, o Projeto de Lei Antifacção[3] ganha tração acelerada. O combate ao crime organizado oferece alto retorno eleitoral, baixo custo político e ampla aceitação social. Medidas como endurecimento penal, isolamento de lideranças criminosas e asfixia financeira das organizações tendem a avançar com maior velocidade.

Nos ciclos eleitorais nacionais, o sistema de Justiça amplia sua relevância inevitável. Questões como inelegibilidades, financiamento de campanhas, abuso de poder e desinformação deslocam para as Cortes decisões sensíveis do processo político. Eleva-se, assim, o papel arbitral do Judiciário, ao mesmo tempo em que cresce sua exposição e contestação pública.

Os discursos inaugurais sinalizaram postura de contenção institucional, defesa da lisura eleitoral e reação preventiva a narrativas de deslegitimação do processo democrático.

Contudo, crises reputacionais recentes, simbolizadas por debates sobre benefícios, fundos e estruturas remuneratórias ampliam tensões entre o Judiciário, a opinião pública e o Parlamento.

A proposta de padronização de critérios na aplicação de penas[4] assume caráter sobretudo simbólico em ano eleitoral. Parlamentares vinculados à pauta da segurança defendem maior rigor e previsibilidade, enquanto a magistratura reage em defesa da individualização da pena. O resultado provável é uma tramitação moderada, com ajustes técnicos e sem confrontação institucional direta.

No campo político, a corrupção retorna ao centro do debate, mais como retórica eleitoral do que como agenda sistêmica de reforma. Investigações, operações e escândalos tornam-se instrumentos de disputa narrativa. Historicamente, contudo, esse movimento produz endurecimentos pontuais e discursos moralizantes, sem resultar em transformações estruturais profundas; sem resultados práticos e, principalmente, sem mudanças na realidade nua e crua da corrupção, impunidade e impactos para nossa sociedade.

A regulamentação da “reforma tributária” ocorre no pior contexto possível. Reformas estruturais significativas raramente prosperam às vésperas de eleições e a tributária não tende a ser exceção. Setores produtivos pressionam, governadores disputam receitas, prefeitos temem perdas e o Congresso atua sob forte cálculo político. A tendência é de andamento técnico gradual, evitando decisões de alto custo eleitoral imediato.

Nesse cenário, comportamentos institucionais tornam-se previsíveis. O Executivo busca entregas rápidas em segurança e programas sociais de impacto. O Legislativo prioriza pautas de retorno eleitoral direto, especialmente crime, corrupção e impostos. O Judiciário, embora chamado a atuar como garantidor do processo eleitoral, vê-se inevitavelmente politizado pelo ambiente.

Qual país emergirá desse ciclo? Não se projeta ruptura institucional. Tampouco crescimento expressivo ou transformação estrutural profunda. O que se desenha é um período de alta temperatura política, reformas moduladas pelo calendário eleitoral, endurecimento penal de consenso, judicialização intensa da política e implementação tributária cautelosa.

O risco não reside na inexistência de reformas, mas na captura eleitoral de seu conteúdo e alcance. O horizonte ainda é incerto. O período pode abrir espaço para avanços em transparência institucional, impulsionados pela pressão da opinião pública sobre os três Poderes.  Entre contenção e tensão, o Brasil atravessará o ciclo eleitoral testando a resiliência de suas instituições e a maturidade democrática de sua sociedade.


[1] Coronel Reserva da Brigada Militar, Especialista em Integração e MERCOSUL (UFRGS)

[2] Proposta de Emenda à Constituição (PEC 18/2025) para reformular a gestão da segurança pública no Brasil.

[3] PL 5582/2025. Altera a Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013, o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, o Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal, a Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, a Lei nº 7.960, de 21 de dezembro de 1989, e a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984, para dispor sobre o combate às organizações criminosas no País.

[4] PL 2.162/2023, chamado de PL da Dosimetria

Guardas Municipais e os limites da Constituição: uma decisão que convida à reflexão

Retornamos ao tema Guardas Municipais! A vida em prol da segurança pública nos ensina, com o tempo, que as instituições se constroem pela convergência de missões, valores e limites bem estabelecidos. E que toda transformação duradoura se faz com raízes fundas, na legalidade, na história e na prudência. A recente decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que declarou inconstitucional a lei municipal que alterava o nome e as atribuições da Guarda Municipal de Gravataí, é um desses marcos que nos convidam a pausar, observar e refletir.

A Lei Municipal nº 4.890/2025 havia proposto a substituição da denominação “Guarda Municipal” por “Polícia Municipal”, ampliando também suas atribuições para além da proteção de bens, serviços e instalações do município. O Tribunal, em julgamento do Órgão Especial, entendeu, com base na Constituição Federal, que essa mudança ultrapassava os limites constitucionais estabelecidos. A decisão foi proferida sob a relatoria do Desembargador Alexandre Mussoi Moreira e trouxe à tona um ponto sensível, porém essencial: as palavras importam, porque carregam funções, identidades e responsabilidades institucionais.

Essa compreensão foi reforçada nos fundamentos jurídicos que embasaram a ação direta proposta pelo Procurador-Geral de Justiça, o qual apontou a violação dos parâmetros fixados pela Constituição Federal quanto à natureza e às atribuições das guardas municipais. Com base no julgamento do Recurso Extraordinário com repercussão geral (Tema 656) pelo Supremo Tribunal Federal, sustentou-se que tais guardas podem, sim, exercer ações de segurança urbana, mas de maneira coordenada e sistêmica com os demais órgãos do sistema, jamais de forma autônoma ou substitutiva.

Ainda segundo o Procurador, se o constituinte originário tivesse pretendido autorizar a criação de “polícias municipais”, o teria feito expressamente. Ao não fazê-lo, vinculou os entes federativos ao modelo estabelecido, impedindo que leis estaduais ou municipais alterem, por conta própria, a identidade funcional atribuída às guardas pela Constituição. A tentativa de reconfiguração institucional, portanto, comprometeria a coerência do pacto federativo e feriria a lógica do sistema nacional de segurança pública.

Na mesma linha, o Desembargador-Relator entendeu que inexiste previsão constitucional para atribuir a órgãos municipais o título de “polícia”, estando expressamente reservada a nomenclatura “guardas municipais”. Tampouco há autorização para que tais órgãos assumam a prevenção e repressão de crimes contra pessoas (competências próprias de outras forças de segurança). Conforme destacou em seu voto, a lei impugnada promove, de forma simultânea, a alteração da denominação da guarda e a ampliação de suas funções, revelando um evidente descompasso com o texto constitucional.

O relator também alertou para um aspecto prático de grande relevância, quais sejam, os impactos financeiros imediatos da mudança, diante da inevitável reestruturação institucional e visual que exigiria a substituição de identidade gráfica em viaturas, fardamentos, imóveis, equipamentos e documentos, o que poderia acarretar prejuízos irreversíveis ao erário municipal.

Ao longo da minha longa trajetória na segurança pública, tive a oportunidade de acompanhar, em diferentes momentos históricos, processos de mudança que nasceram de boas intenções, mas que somente se consolidaram quando submetidos ao crivo do tempo e o amadurecimento institucional. Foi a partir dessa vivência que, em artigo anterior publicado no Correio Brigadiano (“A segurança pública em transformação”, disponível em: https://guiajcb.com.br/artigo-a-seguranca-publica-em-transformacao, tratei da segurança pública como um organismo em constante transformação. Não linear, não isento de tensões, mas construído por sucessivos ajustes.

Naquele texto, ao abordar a decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu às Guardas Municipais o exercício do policiamento ostensivo e comunitário, destaquei que se tratava de um novo capítulo, ainda em fase de assimilação pelo sistema. E talvez resida aí um ponto central, já que transformações estruturais, inevitavelmente, não se esgotam no ato legislativo.

Não há dúvida de que as Guardas Municipais desempenham papel relevante na dinâmica urbana contemporânea. Sua presença cotidiana, próxima da comunidade, é um ativo importante para qualquer política de segurança. Mas reconhecer relevância não significa, necessariamente, redesenhar identidades institucionais de forma abrupta.

A decisão do TJRS não nega protagonismo às Guardas. Antes, reafirma que esse protagonismo deve florescer dentro das balizas constitucionais. Quando um município decide, de forma unilateral, atribuir a si mesmo a prerrogativa de criar uma “polícia municipal”, inaugura-se uma zona de tensão que não diz respeito apenas ao nome, mas ao próprio equilíbrio do sistema federativo.

Como escrevi no artigo citado, a história da segurança pública brasileira demonstra que avanços sólidos foram aqueles construídos com base em padronização, formação, controle e integração. Foi assim com a consolidação das Polícias Militares como forças de policia ostensiva o qual se organizou incrementando um sistema de ensino policial, de corregedoria, de comando e controle. Nada disso nasceu pronto. Tudo passou por décadas de amadurecimento.

Talvez por isso, a decisão que agora analisamos nos lembre de algo simples e, ao mesmo tempo, profundo, já que nem toda possibilidade jurídica autoriza, de imediato, uma transformação estrutural completa.Entre reconhecer novas atribuições e redefinir identidades institucionais há um caminho intermediário que precisa ser percorrido com cautela.

É compreensível que gestores locais busquem respostas rápidas diante da pressão social por mais segurança. Mas a experiência mostra que soluções duradouras raramente são as mais imediatas. Elas costumam ser as mais pensadas.

O episódio de Gravataí, nesse contexto, não encerra o debate, apenas o reposiciona. Ele nos recorda que certos movimentos institucionais, por sua natureza e impacto, carecem de mais do que iniciativas isoladas.

Talvez o verdadeiro desafio, neste momento, seja outro: investir na qualificação das Guardas Municipais, na sua integração com as demais forças, no fortalecimento de sua vocação comunitária, respeitando aquilo que a Constituição já lhes assegura.

Transformar a segurança pública é possível, sim. Mas, como toda obra que se pretende duradoura, exige tempo, responsabilidade e fidelidade aos fundamentos. Entre a pressa que impulsiona e a prudência que edifica, a história tem sido mais generosa com a segunda.

Fica ao leitor a reflexão.

Criminoso morre e outro fica ferido após tentativa de assalto seguida de confronto com PM de folga em Esteio

Assaltantes trocaram tiros com policial militar na saída de agropecuária

Marcel Horowitz Correio do Povo

Um assaltante morreu e outro ficou ferido após troca de tiros no final da manhã desta sexta-feira em Esteio, na Região Metropolitana. Eles tinham feito reféns os proprietários de uma agropecuária, em tentativa de assalto, entrando em confronto com um policial militar de folga na saída do local.

O caso ocorreu na avenida Padre Claret, na área central de Esteio, por volta das 11h15min. De acordo com a Brigada Militar, os bandidos renderam um casal e a filha, donos da pecuária, exigindo com armas o dinheiro das vendas.

Em meio ao assalto, o PM, que está lotado no setor patrimonial e mora Porto Alegre, mas visitava familiares em Esteio, foi ao estabelecimento na intenção de comprar produtos, sendo rendido também. Ele foi libertado pouco antes da fuga dos ladrões, mas resolveu aguardar no entorno da loja. A troca de tiros aconteceu em tentativa de abordagem dele aos dois.

Um criminoso morreu. Outro foi baleado na perna. Ele permanece no hospital, sob custódia. Duas pistolas de uso restrito foram apreendidas. O PM não se feriu. Todas as vítimas passam bem.

Coronel Rodrigo Mohr assume a presidência do TJMRS

Foto: Marcelo Nepomuceno Comunicação Social TJMRS

Rodrigo Mohr Picon ficará à frente da Corte até 2027

O desembargador Rodrigo Mohr Picon, ex-comandante-geral da Brigada Militar, tomou posse nesta quarta-feira (4) como novo presidente do Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul (TJM-RS) para o biênio 2026/2027. Ele substitui a desembargadora Maria Emília Moura da Silva, primeira mulher a presidir a Corte.

Entre as prioridades da nova gestão, Picon destacou a aprovação do plano de carreira dos servidores e a mudança para o novo prédio do tribunal. O novo presidente também ressaltou a importância da Justiça Militar no julgamento de crimes envolvendo policiais e bombeiros militares, defendendo a especialização jurídica do sistema do escabinato.

Picon afirmou ainda que as carreiras de policial e bombeiro militar são complexas e exigem formação rigorosa, controles interno e externo, além de julgamento célere e especializado, papel que, segundo ele, é cumprido pelo TJM-RS com eficiência processual e elevada qualidade técnica.

Composição do TJM-RS (2026/2027):

  • Desembargador militar Rodrigo Mohr Picon, presidente
  • Desembargador militar Sergio Berni de Brum, vice-presidente
  • Desembargadora militar Gabriela John dos Santos Lopes, corregedora da Justiça Militar
  • Desembargador militar Fabio Duarte Fernandes, ouvidor da Justiça Militar
  • Desembargador militar Amílcar Fagundes Freitas Macedo, diretor da Escola Judicial Militar
  • Desembargadora militar Maria Moura, ouvidora da Mulher

Sobre o presidente

Rodrigo Mohr Picon tem 56 anos e é natural de Porto Alegre. Bacharel em Ciências Militares pela Academia de Polícia Militar, também é graduado em Letras e pós-graduado em Gestão da Segurança pela Ulbra.

Reprodução / TJM-RS
Desembargador foi comandante da BM entre 2019 e 2021.Reprodução / TJM-RS

Ingressou na Brigada Militar em 1987. Comandou batalhões e o Comando de Policiamento da Capital, antes de ser comandante-geral da corporação, entre 2019 e 2021. Foi indicado ao TJM-RS pelo governador Eduardo Leite.

Na Corte, dirigiu a Escola Judicial Militar no biênio 2022/2023 e foi corregedor no biênio 2024/2025.

Socorro silencioso da Brigada Militar salva até nove vidas por dia no RS

Mais de 3 mil pessoas foram salvas por PMs em 2025 em atendimentos de emergência e ações de salvamento

Crianças engasgadas, vítimas de afogamento, feridos graves e pessoas em risco iminente. Situações extremas fazem parte da rotina silenciosa dos policiais militares da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Muito além do policiamento ostensivo, a Corporação atua diariamente também em um papel decisivo para a preservação da vida.

Em média, de oito a nove pessoas são salvas por dia em ações de prestação de socorro e salvamento realizadas pela BM. Ao longo do ano de 2025, esse trabalho resulta em 3.060 vidas preservadas em todo o Estado.

Em muitas ocorrências, os policiais militares são os primeiros a chegar ao local, especialmente quando o tempo é determinante para a sobrevivência da vítima. Crianças engasgadas, pessoas em afogamento, feridos por arma branca ou de fogo e vítimas de acidentes recebem, ainda no local, os primeiros atendimentos de urgência. As ações são realizadas por policiais treinados em Atendimento Pré-Hospitalar (APH), sempre que necessário.

PMs aparecem durante o treino de atendimento a uma vítima ferida
Curso APH no Bope em 2025 – Foto: 2 BPChq

Vítimas amparadas

Essas ocorrências se repetem diariamente. Os números ajudam a dimensionar essa realidade: foram 2.570 atendimentos de prestação de socorro em emergências, somados a 490 salvamentos de pessoas, totalizando 3.060 atendimentos com preservação de vidas durante o ano de 2025. Isso representa uma média de 255 pessoas salvas por mês.

Em situações de desespero, a chegada da guarnição significa mais do que a presença do Estado, representa a chance concreta de sobrevivência, enfatiza o Comandante-Geral da Corporação, Coronel PM Cláudio dos Santos Feoli. Segundo ele, essa capacidade de resposta está diretamente ligada à formação contínua dos policiais militares. A Brigada Militar mantém, ao longo do ano, um amplo calendário de cursos voltados ao aperfeiçoamento técnico e profissional, destaca o comandante da instituição.

De forma imediata, os policiais iniciam procedimentos como a manobra de Heimlich, para desobstrução das vias aéreas, controle de hemorragias, estabilização de feridos e outras técnicas fundamentais, sempre que o cenário exigir tal ação. O atendimento segue até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou a condução rápida ao hospital mais próximo, dependendo do caso.

Procedimentos decisivos

Um dos exemplos emblemáticos dessa atuação ocorreu durante uma ocorrência de violência doméstica, em Porto Alegre. Ao chegar ao local, uma guarnição do 1º Batalhão de Polícia Militar encontrou uma mulher caída ao solo, com múltiplos ferimentos causados por arma branca e intenso sangramento. A situação era crítica.

Enquanto o autor do crime era contido e preso em flagrante, os policiais iniciaram imediatamente o Atendimento Pré-Hospitalar. Foram aplicados torniquete no braço esquerdo, selo de tórax na região do peito, preenchimento com gaze hemostática na parte frontal e traseira do pescoço, além de sustentação com bandagem israelense.

Os procedimentos foram decisivos para conter as hemorragias e manter a vítima viva até a chegada do Samu. A mulher foi encaminhada ao Hospital de Pronto Socorro em estado grave. O atendimento imediato fez a diferença.

Crianças em perigo

Casos assim não são exceção. Em outro atendimento que ilustra a rotina silenciosa de salvamentos, uma dupla de policiais militares, durante patrulhamento em Capão da Canoa, encontrou uma senhora em desespero, carregando uma criança de dois anos engasgada.

Sem hesitação, os policiais realizaram a manobra de Heimlich ainda na via pública. Após a desobstrução das vias aéreas, a menina foi encaminhada ao Hospital Santa Luzia, onde recebeu atendimento médico e retornou ao estado normal.

São apenas dois entre centenas de episódios que ajudam a explicar por que a Brigada Militar registra uma média diária de até nove vidas salvas. As ocorrências vão de engasgamentos e afogamentos a ferimentos graves. A maioria delas raramente ganha visibilidade, mas faz parte do cotidiano do policiamento.

Formação contínua

Um dos principais é o Curso de Atendimento Pré-Hospitalar em Combate (APH-C), organizado pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). A capacitação segue protocolos internacionais de atendimento em cenários de alto risco (TCCC), com foco no controle de hemorragias, uso de torniquetes, curativos compressivos e atendimento em ambientes hostis a ser utilizados em Policiais Militares feridos, se o caso assim permitir, todavia, também aplicável em qualquer situação visando salvar vidas.

Curso APH-P
Simulação em Curso de APH – Foto: BM

A formação é contínua e descentralizada, alcançando batalhões em diferentes regiões do Rio Grande do Sul, afirma o comandante-geral.

Além disso, os policiais que atuam no atendimento do 190 passam por qualificação específica no Curso de Operador do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). A Corporação também investe em atualização tecnológica e em cursos voltados a diversas áreas operacionais.

Em comum, todas essas formações reforçam um princípio que se materializa nas ruas e se traduz em números concretos: mais de 3 mil pessoas salvas em um ano, muitas delas nos primeiros minutos críticos, antes mesmo da chegada do atendimento especializado.

Em meio ao risco, à violência e à pressão constante, o policial militar do Rio Grande do Sul cumpre um papel que muitas vezes passa despercebido. Um trabalho silencioso, técnico e humano, que salva vidas todos os dias, conclui o Comandante-Geral da BM, Coronel PM Cláudio dos Santos Feoli.

Além do policiamento ostensivo:
Prestação de socorro e salvamento realizados pela BM
• 3.060 vidas preservadas no ano de 2025 no RS
• Média de 255 pessoas salvas por mês
• De 8 a 9 vidas salvas por dia
• 2.570 atendimentos de socorro em emergências
• 490 salvamentos diretos de pessoas
• Casos frequentes de crianças engasgadas e vítimas de afogamento
• Policiais treinados em Atendimento Pré-Hospitalar (APH)
• Cursos contínuos com protocolos internacionais (TCCC)
• Atendimento qualificado também no 190 (Copom)

Texto: jornalista Marcelo Miranda – SC PM5/Brigada Militar

Fonte:Brigada Militar

Nova aeronave da Polícia Civil já chegou em Porto Alegre

Com cabine pressurizada, o turboélice Piper Malibu tem capacidade para seis pessoas e 1,8 mil km de alcance

Humberto Trezzi GZH

Policiais gaúchos ganharam asas para deslocamentos rápidos, inclusive para outros Estados. Já está em solo gaúcho o novo e mais completo avião da Polícia Civil. É um turboélice Piper PA-46-500TP Malibu Meridian, adquirido por US$ 2,6 milhões (R$ 14 milhões). Desse valor, R$ 9,5 milhões serão bancados pelo Fundo Nacional da Segurança Pública e R$ 6,3 milhões pelo fundo estadual.

Apesar de usado, o Malibu é um bólido com reduzida quilometragem – pouco mais de mil horas de voo, o que é ínfimo, em se tratando de aeronaves. Desenvolve quase 500 quilômetros por hora, metade da velocidade de um jato comercial, o que não é pouco para um avião movido a hélice.

O avião, um monomotor, foi adquirido após intensa pesquisa e comprado nos Estados Unidos, de um particular. É modelo 2015, mas parece novo em folha. Chegou a Porto Alegre e está sendo submetido a vistorias em oficinas de manutenção situadas junto ao Aeroporto Salgado Filho. É necessária toda uma checagem, antes da homologação para voo, que não tem data certa. A expectativa é que seja nos próximos meses.

O Piper Malibu tem capacidade para seis pessoas e deve ser usado para levar e trazer policiais ou apenados. É um veículo mais apropriado para esse tipo de transporte, do que os aviões comerciais.

A Polícia Civil gaúcha até tem outras duas aeronaves, informa o Chefe de Polícia, delegado Heraldo Guerreiro. Um helicóptero e um bimotor Beechcraft Baron, bastante antigo (modelo 1981), apreendido de traficantes e que exige constante manutenção. Com 10 anos de uso, o Malibu é um seminovo, em padrões aeronáuticos.

O novo avião é pressurizado, o que lhe concede capacidade de voar a até 9,1 quilômetros de altitude. Tem alcance também para percorrer até 1,8 mil km sem necessidade de reabastecimento. Outra facilidade é que pode decolar e pousar em pistas curtas, inclusive de grama, com até 750 metros de comprimento.

– Era uma necessidade e faremos bom uso dessa nova aquisição – comemora o delegado Guerreiro.

Brigada Militar terá troca de comando em 15 de fevereiro

Comandante Feoli completa 35 anos de serviço e vai para a reserva

Rosane de Oliveira GZH

Depois de 35 anos de serviço, os últimos quatro no comando da Brigada Militar, o coronel Cláudio Feoli vai para a reserva no dia 15 de fevereiro. Sai triste, porque gostaria de encerrar a carreira depois de ver esclarecidos os últimos episódios que mancharam a imagem da Brigada Militar.  

— Estamos atuando nas investigações a fim de responsabilizar desvios de conduta. A esmagadora maioria da tropa é vocacionada e alinhada com os valores da instituição. Nossa missão é primeiramente salvar vidas e, em segundo plano, aplicar a lei — disse Feoli à coluna, em tom de desabafo.  

O coronel teme que sua saída seja associada ao momento difícil em que vive a Brigada, com policiais que cometeram erros graves, mas lembra que é uma transição planejada. É praxe a transferência para a reserva quando o brigadiano completa 35 anos de serviço. 

Feoli não quer falar sobre as investigações em andamento. Prefere dar entrevista apenas quando estiver concluído o inquérito sobre o caso do agricultor morto em Pelotas, numa ação desastrada que envolveu 18 policiais militares. 

Além do comandante-geral, deve sair o subcomandante, coronel Douglas da Rosa Soares. 

O repórter Vitor Rosa, da RBS TV, apurou que o mais cotado para substituir Feoli é o coronel Luigi Gustavo Soares Pereira, atual chefe do Estado-maior da Brigada Militar. 

GZH faz parte do The Trust Project

Preparação, prevenção e salvamentos: como é a rotina dos guarda-vidas no Litoral Norte

Coordenador da Operação Verão do CBMRS, major Jocemarlon Acunha Pereira fala sobre o trabalho dos guarda-vidas

Guilherme Sperafico Correio do Povo

Antes dos primeiros banhistas chegarem à beira da praia, a rotina dos guarda-vidas no Litoral Norte do Rio Grande do Sul já começou. O dia de trabalho inicia com um olhar atento para o mar, em um ritual que se repete diariamente e que faz toda a diferença para a segurança de quem aproveita a praia.

Buracos na areia, correntes de retorno e o comportamento das ondas são observados com cuidado antes mesmo da definição da área liberada para banho. Depois, a maior parte do trabalho é preventivo. Sempre que alguém ultrapassa a altura da cintura, o apito soa e o guarda-vidas se aproxima para orientar ou retirar a pessoa da água.

Por isso, o Podcast Direto ao Ponto conversa com o coordenador da Operação Verão do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS), major Jocemarlon Acunha Pereira – o major Acunha -, que relata como é a rotina diária dos 800 guarda-vidas que atuam no Estado.

Governador Eduardo Leite vai cobrar nova postura da Brigada Militar

Últimos incidentes incomodaram o governador, que marcou “reunião de alinhamento”

Rosane de Oliveira GZH

Para não lavar roupa suja em público, o governador Eduardo Leite vem economizando palavras para falar sobre os últimos incidentes envolvendo a Brigada Militar, mas está “irresignado” com o que considera equívocos na atuação. Fonte próxima do governador informa que nos próximos dias haverá um “encontro de alinhamento para retomar a condição anterior de bem prestar o serviço”.

Nos últimos anos, a segurança pública era a área mais celebrada do governo, pelos resultados concretos na queda dos índices de violência. No final de 2025 e início de 2026 acendeu-se o sinal de alerta, por conta de ações duvidosas ou francamente equivocadas da Brigada Militar. 

A sequência de problemas começou com a morte do jovem Herick Vargas, de 29 anos, por uma dupla de policiais militares que foram até a residência da família atendendo a um chamado da mãe. Herick estava em surto e foi morto no momento em que já tinha sido controlado. Caso semelhante ocorreu em Santa Maria, com um homem em surto, Paulo Chaves, de 35 anos, morto pelos brigadianos que foram atender a um chamado no bairro Tancredo Neves.

O caso de maior repercussão nessa sequência de ações polêmicas foi a morte do agricultor Marcos Nornberg, 48 anos, baleada numa ação em que tudo deu errado. 

Os 18 brigadianos que cercaram a propriedade onde Marcos morava com a família chegaram ao local levados por uma informação equivocada da polícia do Paraná de que, naquele endereço, se homiziava uma quadrilha que guardava armas e drogas. O plantador de morangos imaginou que eram assaltantes e pegou a arma que guardava em casa para se defender. Foi morto com uma saraivada de tiros.

Como se isso fosse pouco, a esposa do agricultor, Raquel Nornberg, foi humilhada pelos policiais, que a trataram como criminosa.

A reunião de alinhamento terá de tratar de outro tema crucial na segurança pública, que são os feminicídios consumados e as tentativas que deixam mulheres feridas física e psicologicamente. 

Trata-se de um crime de difícil combate, porque na maioria das vezes ocorre entre quatro paredes. São 10 neste mês de janeiro, número superior ao do mesmo período de 2025, que também foi trágico. Neste caso, o problema vai além da Secretaria da Segurança, responsável pelo monitoramento de agressores, pela investigação e pela prevenção. Precisa envolver todas as áreas do governo, especialmente as secretarias da Mulher, da Educação, do Trabalho, do Desenvolvimento Social e da Saúde.

Servidores do RS poderão ter direito ao auxílio-refeição durante as férias, decide Justiça

Entendimento é favorável aos servidores públicos e contraria pleito do governo do Rio Grande do Sul

Correio do Povo

O pagamento do auxílio-refeição para os servidores públicos do Rio Grande do Sul passará a ser devido durante o período de férias, devendo a parcela integrar a base de cálculo do terço constitucional – essa foi a decisão firmada via Incidente de Uniformização de Jurisprudência, julgado pela Turma de Uniformização da Fazenda Pública.

O entendimento é favorável aos servidores públicos estaduais e reconhece o direito defendido pelo Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Estado do RS (Sintergs). Em seu site, o sindicato já passa a orientar os servidores sobre o procedimento a ser adotado para aderir à nova regra. A Procuradoria-Geral do Estado acompanha o andamento do processo, que ainda não transitou em julgado.

O governo gaúcho defende a validade no que foi disposto na Lei 16.041, de 2023, que calculava o valor do vale refeição apenas referente aos dias efetivamente trabalhados. Já o sindicato, que representa mais de dez mil servidores de nível superior do RS, defende o disposto na Constituição Estadual, que considerava também o período de férias e a inclusão no terço constitucional.

Na decisão, favorável ao pleito dos servidores, a magistrada relatora, juíza Márcia Regina Frigeri, destacou que o período de férias é considerado como de efetivo exercício, nos termos da legislação estadual e da Constituição Federal. Conforme consta no voto, “a remuneração das férias deve equivaler à que o servidor perceberia em efetivo exercício”, sendo assegurado o direito a “todas as vantagens, como se estivesse em exercício”.

“Logo, sendo as férias consideradas como efetivo exercício, impõe-se a manutenção de todas as parcelas remuneratórias de caráter habitual que integram o padrão retributivo do servidor”, segue o entendimento judicial. A juíza concluiu que “deve ser reconhecido aos servidores públicos do Estado do Rio Grande do Sul o direito ao auxílio-refeição nas férias, devendo integrar a base de cálculo do respectivo terço constitucional”, respeitada a prescrição quinquenal.

O Sintergs comemorou a decisão. “Estávamos acompanhando de perto esse incidente de uniformização, e a decisão sinaliza aos governos a importância de respeitar e garantir direitos, o que caracteriza uma boa gestão. Trata-se de um avanço significativo na defesa dos direitos dos servidores públicos estaduais e reforça uma tese histórica do Sindicato de que as férias devem ser remuneradas de forma integral, tema que já tinha sido debatida com representantes do governo”, destacou o presidente do sindicato, Nelcir André Varnier.

A decisão foi tomada via Turma de Uniformização da Fazenda Pública, que é o colegiado responsável por harmonizar interpretações divergentes entre as Turmas Recursais dos Juizados Especiais da Fazenda Pública, garantindo segurança jurídica e evitando decisões conflitantes sobre o direito material aplicado aos servidores. Ocorria que as duas turmas da Fazenda Pública tinham entendimento divergentes na primeira instância. A partir de agora, cria-se uma jurisprudência para uniformizar as decisões.