PE: Sargento da Polícia Militar é punido com três dias de detenção por tamanho do seu bigode

Defesa do policial que está há 35 anos na corporação afirma que ele desconhecia a regra, que foi alterada em 2020

Estadão Conteúdo

O segundo sargento da Polícia Militar Samuel de Araújo Lima, que está há 35 anos na corporação, foi punido com três dias de detenção por conta do tamanho do seu bigode. O militar ‘usava o bigode em desacordo com o previsto no SUNOR nº 068’, segundo nota de culpa da Polícia Militar de Pernambuco de 12 de janeiro.

O advogado Tiago Reis, que faz a defesa de Lima, explicou que o segundo sargento estava no Programa de Jornada de Segurança (PJES) – um serviço extra remunerado – quando a capitã responsável pela fiscalização percebeu que seu bigode estava passando a linha superior dos lábios e chegando à linha inferior.

Mesmo integrando a corporação desde 1991, Lima não conhecia a regra alterada em 26 de outubro de 2020 através do SUNOR nº 068, que estabelece padrões de apresentação pessoal para todos os militares estaduais em Pernambuco.

‘Ela não deu prazo para ele fazer a correção, que tem que se fazer a revista. Naquele exato momento ele estava no meio da rua, de serviço. Não dava para arrumar um barbeador ou gilete’, comentou o advogado, depois de explicar que o sargento usa o bigode desde que entrou na corporação.

Mesmo apresentando a sua defesa verbalmente ao comandante do primeiro batalhão, o sargento foi condenado a uma punição disciplinar em três dias de detenção. A defesa do PM busca mostrar o alto rigor da sentença, além de buscar um recurso após uma promoção por bravura ser negada ao segundo sargento um dia antes da punição por conta do bigode.

Lima esperava se tornar primeiro sargento por bravura, depois de prender um criminoso de alta periculosidade em 2024.

Confira a nota da Polícia Militar de Pernambuco na íntegra:

A Polícia Militar de Pernambuco informa que a punição disciplinar aplicada ao referido policial decorre do descumprimento de normas internas que regulamentam os padrões de apresentação pessoal dos militares estaduais. Antecedem o ato a reiteração de descumprimento, que no caso do graduado foi alvo de advertências verbais para adequação, sendo levado em consideração ainda os antecedentes do militar. Vale salientar que a foto que circula na imprensa não condiz com a apresentação que gerou a comunicação de descumprimento de norma interna, o que pode gerar uma falsa associação e estranheza pela punição aplicada. Ressaltamos também que a medida adotada não retira o militar do serviço, tratando-se de sanção administrativa prevista nos regulamentos internos da Instituição. O procedimento disciplinar observou os princípios do contraditório e da ampla defesa, assegurando ao militar o pleno direito de defesa e acompanhamento do processo. A PMPE destaca que possui normas e regulamentos internos que visam a preservação da disciplina e da hierarquia, pilares essenciais para o adequado funcionamento da Corporação.

‘O serviço é caro quando é ruim’, diz presidente do IPE Saúde sobre reestruturação

Em entrevista exclusiva, Paulo Rogério Silva dos Santos detalha plano para melhorar o atendimento aos 829 mil segurados e estancar a saída de usuários após a reforma que aumentou alíquotas

Flávia Simões Correio do Povo

Enfrentando críticas pela falta de médicos e suporte, a administração do IPE Saúde corre para conseguir preencher os 10.460 postos de atendimento recém abertos. A contratação de novos prestadores faz parte do programa de reestruturação do Instituto, que começou ainda em 2023 e está na sua segunda fase, cujo objetivo é ampliar o quadro médico, composto hoje por pouco mais de 5 mil profissionais, conforme o balanço-geral de 2024.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Povo, o atual presidente, Paulo Rogério Silva dos Santos, empossado no início de novembro de 2025, reconhece as dificuldades, conta quais são os próximos passos da reestruturação e como ele pretende manter os segurados após a reforma que aumentou as alíquotas e fez com que 44 mil usuários deixassem o plano.

Entre as medidas, estão um novo programa para o credenciamento de hospitais e clínicas; e o investimento em informatização para melhora no suporte oferecido aos usuários. Atualmente, somente 150 pessoas atendem toda a rede no Estado.

Confira os principais trechos:

  • O edital aberto no início de janeiro anunciou cerca de 10 mil vagas. É um número alto e, agora, foi prorrogadas as inscrições. Está sendo difícil atingir essa meta?

Existe um estudo técnico para chegar nesse número (de vagas). Para definir isso em relação às regionais, existe um sistema integrado georreferenciado de necessidades. Essa necessidade foi mapeada e distribuída. Nós não temos capilaridade integral nos 497 municípios porque não haveria demanda, mas temos atendimento estruturado em 356 municípios. Esse estudo visa que uma pessoa, mesmo em um município pequeno que não comporta as 42 especialidades, tenha atendimento o mais próximo possível para não precisar se deslocar de Uruguaiana a Porto Alegre ou Itaqui para Porto Alegre.

  • E, até agora, como está o resultado obtido? Por que a prorrogação?

O programa está indo muito bem e os números são ótimos, embora provisórios. Nós dialogamos com as três entidades médicas (Simers, Amrigs e Cremers) e elas são parceiras hoje. A prorrogação ocorreu a pedido dessas entidades devido ao período de festas e férias a partir de 15 de dezembro, que dificultou a obtenção de documentação.

  • Parte das reclamações dos usuários do IPE é a dificuldade de conseguir um atendimento de média e alta complexidade, principalmente no Interior. Como resolver essa demanda?

Esse é um outro programa que será desenvolvido em breve. O primeiro pilar da reestruturação foi financeiro; o segundo é o “Mais Assistência”, que visa recompor a rede de consultas. Hoje temos 247 hospitais credenciados para média e alta complexidade, naturalmente concentrados em polos como Porto Alegre, Canoas e Caxias.

  • Outra demanda dos usuários é um suporte administrativo mais eficiente. Como melhorar essa questão?

O IPE Saúde opera com apenas 150 pessoas para atender 829 mil segurados, 5 mil médicos e 600 laboratórios. O que nos salva é a informatização. Futuramente, o próprio segurado poderá avaliar o prestador, como em sistemas tipo o Doctoralia (portal com informações e avaliações sobre médicos). Esse sistema está sendo desenvolvido pela Procergs. No Interior, onde tínhamos escritórios, hoje usamos a estrutura do estado com os “facilitadores”, que são pessoas treinadas em órgãos públicos para ajudar quem tem dificuldade com o meio virtual.

  • O uso da tecnologia deverá ser o foco, então, do processo de melhora na administração. Mas boa parte dos usuários são idosos e não têm facilidade com a tecnologia. Qual alternativa para esse caso?

Hoje já temos o cartão digital, mas manteremos recursos físicos para dialogar com esse segurado. Nossa média etária é alta: mais de 45 anos, sendo que 40% têm mais de 60 anos. Eu mesmo tenho 63 anos, sou segurado e acredito no IPE.

  • Quais impactos da reforma de 2023 são sentidos na prática?

Um passo gigante foi a contribuição dos dependentes. Nós temos mais dependentes do que segurados originários (servidores da ativa e aposentados). Antes não se cobrava nada deles, o que gerou um déficit importante em 2023. Hoje o IPE Saúde é superavitário, arrecada mais do que gasta, mas com uma margem estreita de gestão, pois a receita é inelástica (fixa).

  • As alterações acabaram pesando no bolso de alguns servidores, que decidiram deixar o plano. Como manter o segurado?

Melhorando os serviços. O serviço é “caro” quando é ruim. Nossa contribuição é uma das menores do país comparada a institutos similares, como o de Minas Gerais. O IPE não é regulado pela ANS, então tem um leque de serviços menor, mas nosso ticket médio é de R$ 380, enquanto um plano de saúde privado pode ser três ou quatro vezes mais caro. Temos limites.

  • No último ano, a queda de usuários foi de 44 mil. Quem foram essas pessoas que deixaram o IPE?

Basicamente dependentes que antes não pagavam nada e categorias de maiores salários (Judiciário, Ministério Público, Assembleia) que optaram por planos maiores. No entanto, para quem chega aos 70 ou 80 anos, um plano privado custa fortunas, enquanto no IPE o valor continua sendo uma porcentagem da folha (3,6%).

Homem é preso por assustar moradores fantasiado de lobisomem

Por volta das 21 horas deste Domingo (25) um homem foi preso no Bairro Santa Rita em Guaíba RS, após assustar moradores da região com fantasia de um cachorro, dizendo ser o suposto “lobisomem” que recentemente movimentou uma ocorrência policial no município de Sentinela do Sul RS.


Conforme relatos de moradores, o homem teria assustado crianças e pessoas idosas da localidade pulando muros e portões , além de uivar imitando um cão entre as 23 horas e 03:00 horas da noite anterior. O homem foi preso em frente a um supermercado.
Fonte: Gafr Guaíba
Imagem ilustrativa gerada por IA

Por que em nome da democracia, se violaram os direitos humanos? Democracia não se defende com arbítrio!

Marco Antônio Moura dos Santos[1]


              Há uma distorção grave, e perigosa, em curso no debate público brasileiro: em nome da democracia, aceita-se o desmonte paulatino das garantias que a sustentam. O discurso da defesa institucional passou a servir como salvo-conduto para o arbítrio. Quando direitos fundamentais são relativizados sob aplausos ou silêncio ensurdecedor, a democracia já começou a ruir.

Não se trata de retórica exagerada. Trata-se de uma constatação jurídica elementar: democracia[2] não é um valor simbólico nem um slogan político. É um regime jurídico de contenção do poder. Sem limites, o poder não protege a democracia, ele a substitui.

Direitos fundamentais[3] existem para proteger o indivíduo contra o abuso do próprio Estado, não para proteger governos, tribunais ou maiorias ocasionais.  Quando passam a ser tratados como obstáculos à governabilidade ou à estabilidade institucional, deixam de cumprir sua função e revelam a falência do constitucionalismo.

A Constituição de 1988 é clara ao instituir o Brasil como um Estado Democrático de Direito, fundado na dignidade da pessoa humana, na legalidade e no devido processo legal (art. 1º, III; art. 5º). Não há, no texto constitucional, autorização para suspender direitos em nome de finalidades políticas abstratas, apenas em casos de situações de exceção[4].

Toda experiência autoritária começa da mesma forma: pela criação de um estado permanente de exceção travestido de necessidade. O provisório vira permanente. O excepcional se normaliza. E o abuso passa a ser apresentado como virtude institucional. Hannah Arendt[5] alertou que o mal político moderno não se impõe apenas pela violência explícita, mas pela banalização administrativa do arbítrio. Quando decisões excepcionais deixam de causar escândalo, o autoritarismo já venceu[6].

A Declaração Universal dos Direitos Humanos[7] não foi escrita para proteger cidadãos convenientes. Foi concebida para impedir que Estados decidissem quem merece direitos.

Quando direitos passam a depender da identidade política ou moral do indivíduo, o Estado de Direito é substituído pela lógica do inimigo. Direitos humanos não são prêmio, favor ou tolerância. São limites jurídicos inderrogáveis. Negá-los seletivamente é reintroduzir, sob nova linguagem, práticas que a história já condenou. Não existe democracia[8] protegida por exceções permanentes. A ideia de que os fins justificam os meios é incompatível com qualquer ordem constitucional legítima.

Violar direitos humanos em nome da democracia não é defendê-la. É esvaziá-la. É trocar a cidadania pela submissão. É substituir o governo das leis pelo governo das conveniências.

A defesa da democracia por meio da relativização de direitos fundamentais revela uma contradição estrutural do constitucionalismo contemporâneo. A jurisprudência constitucional brasileira é firme no sentido de que a defesa institucional não autoriza a relativização de garantias fundamentais.

O Supremo Tribunal Federal (STF) já afirmou que o devido processo legal integra o núcleo essencial do Estado Democrático de Direito (HC 82.424/RS)[9], não podendo ser flexibilizado por razões de conveniência política ou institucional; bem como que os direitos fundamentais operam como limites materiais ao poder estatal, inclusive em situações excepcionais (HC 95.009/SP)[10]. No mesmo sentido, o STJ assentou que a eficiência penal não legitima ou justifica a supressão de garantias constitucionais sob pena de violação à legalidade estrita, (HC 598.051/SP)[11].

A história é implacável com esse tipo de ilusão, em todo mundo.  O poder que hoje se diz necessário jamais se contenta com pouco. E quando os direitos caem, não caem apenas para alguns, caem para todos. Por isso ficam as perguntas:

“¿Por qué en nombre de la democracia se violaron los derechos humanos?”

¿Como los derechos que nos hacen ciudadanos y ciudadanas pueden ser reconocidos o vulnerados según las acciones que realizamos como indíviduos, comunidades o instituciones?[12]


[1] Coronel da reserva da Brigada Militar e Doutorando e m Direito pela Universidade Nacional de Mar del Plata, República Argentina

[2] Democracia não é apenas decisão da maioria, mas um sistema que trata todos com igual respeito e consideração. Ronald Dworkin. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

[3] Os direitos fundamentais são limites e vínculos impostos ao poder, inclusive ao poder democrático. Luigi Ferrajoli. Direitos e garantias. São Paulo: RT, 2011.

[4] O Estado de Defesa e o Estado de Sítio são mecanismos constitucionais previstos para situações excepcionais em que a ordem pública ou a própria existência da nação estejam ameaçadas

  • [5] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

[6] O estado de exceção tende a se tornar técnica ordinária de governo. Giorgio Agamben. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004

  • [7] ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948.
  • [8] Democracia não é apenas decisão da maioria, mas um sistema que trata todos com igual respeito e consideração. Ronald Dworkin. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

[9] BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 82.424/RS. Rel. Min. Sepúlveda Pertence. Tribunal Pleno. Julgado em 17 set. 2003.

[10] BRASIL. Supremo Tribunal Federal. HC 95.009/SP. Rel. Min. Celso de Mello. Segunda Turma. Julgado em 6 nov. 2008.

[11] BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HC 598.051/SP. Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz. Sexta Turma. Julgado em 2 jun. 2020.

[12] Questões expostas para reflexão sobre democracia e cidadania, no Museu da Independência da Colômbia, Museu del 20 de julio em Bogotá. Colômbia.

Brigada Militar inicia curso de formação policial para 800 novos alunos-soldados

Convocados terão amplo ciclo de instruções em Porto Alegre e Montenegro

A Brigada Militar realizou, nesta terça-feira (20/01), a inclusão de 800 novos alunos-soldados que vão integrar o Curso Básico de Formação Policial Militar (CBFPM) da Corporação. A apresentação oficial dos convocados ocorreu às 9h, no ginásio da Escola de Educação Física da Brigada Militar (EsEF-BM), na Capital.

Do total de novos alunos-soldados, 500 realizarão a formação na 2ª Escola de Formação, Habilitação e Especialização de Praças de Porto Alegre (2ª EsFHP-PA), enquanto outros 300 serão formados no Centro de Treinamento e Especialização de Montenegro, antiga Escola de Formação e Especialização de Soldados (EsFES), estrutura que está pronta para receber a nova turma.

Entre as autoridades presentes na solenidade estavam o comandante-geral da Brigada Militar, coronel PM Cláudio dos Santos Feoli; o subcomandante-geral da BM, coronel PM Douglas da Rosa Soares; e o chefe do Estado-Maior da BM, coronel PM Luigi Gustavo Soares Pereira.

Reforço para a segurança

Comandantes da BM falam aos futuros soldados em um estádio.
Comandante-Geral, coronel PM Feoli: “um marco para a Corporação e para a segurança da população” – Foto: Sd PM Brenda PM5

Os alunos-soldados iniciam um amplo ciclo de formação, com foco em policiamento ostensivo, práticas policiais, preparo físico e disciplina. As primeiras instruções, ainda nesta terça-feira (20/01), ocorreram no ginásio da EsEF-BM, localizado na Avenida Coronel Aparício Borges, nº 2.001, bairro Partenon, em Porto Alegre.

O comandante-geral da Brigada Militar, coronel PM Cláudio dos Santos Feoli, destacou que o início do curso representa um reforço substancial para a segurança pública no Rio Grande do Sul. “A chegada de 800 novos soldados é um marco para a Corporação e para a segurança da população. Esses policiais militares vêm para fortalecer ainda mais o efetivo operacional em todo o Estado, integrando uma formação robusta que conjuga técnica, preparo físico, disciplina e compromisso com a proteção dos gaúchos”, afirmou.

Segundo o comandante-geral, a formação representa um investimento contínuo no profissionalismo da Brigada Militar, alinhado às demandas atuais da segurança pública. Ele ressaltou, ainda, o esforço da Corporação em manter a qualidade do ensino, investir em infraestrutura e ampliar a capacidade de resposta às necessidades da sociedade.

Capacidade operacional

A etapa de formação inclui instruções sobre policiamento ostensivo, uso da força, armamento e munição, legislação, direitos humanos, defesa policial, além de atividades de preparo físico. Concluído o curso, os novos soldados estarão aptos a atuar nos diversos comandos regionais da Brigada Militar, ampliando a capacidade operacional da instituição em todo o Estado.

Os novos alunos-soldados foram aprovados em concurso público cuja nomeação foi autorizada pelo governador Eduardo Leite, que determinou a chamada de 1.200 novos militares, sendo 800 já incluídos no curso de formação e outros 400 previstos para abril de 2026. O concurso tem validade até novembro de 2027, podendo ser prorrogado por igual período.

Na segunda-feira (19/01), ao longo de todo o dia, foi realizada a sindicância de vida pregressa, etapa final de verificação documental e de requisitos para o ingresso na Brigada Militar.

Texto: jornalista Marcelo Miranda, SC PM5 – Brigada Militar

Fonte: Brigada Militar

Saidinhas: o cinismo do Estado, o oportunismo da política e a conta paga pela sociedade

Marco Antônio Moura dos Santos[1]

O debate sobre as “saidinhas” de presos no Brasil é, antes de tudo, um retrato da hipocrisia institucional que domina a segurança pública nacional. Não se trata de um erro técnico, nem de um simples desacordo jurídico. Trata-se de “cinismo político, omissão estatal deliberada e exploração eleitoral do medo”.

A “saída temporária virou bode expiatório” perfeito. É simples, é emocional, rende manchete e palanque. Serve para discursos inflamados, vídeos de campanha e indignação seletiva. Mas não enfrenta e nunca enfrentou, o problema real: o Estado brasileiro perdeu o controle do sistema prisional há décadas.

Prisões dominadas por facções, progressões concedidas no automático, ausência de inteligência penitenciária, fiscalização inexistente e um sistema que sequer sabe, com precisão, quem entra, quem sai e quem manda. Diante desse colapso, a política optou pelo caminho mais fácil: culpar a lei, não a própria incompetência.

A verdade incômoda é esta: não foi a “saidinha” que falhou; foi o Estado que nunca funcionou. Um benefício excepcional, discutível e que deveria ser cercado de critérios rigorosos, virou rotina burocrática. E quando essa rotina produz tragédias previsíveis a resposta não é gestão, é espetáculo.

Na campanha eleitoral de 2022, por exemplo, o tema foi explorado até a exaustão como se bastasse “acabar com a saidinha” para devolver a paz às ruas. Uma fraude intelectual. Uma cilada deliberada. Quem prometeu segurança com slogans sabia ou deveria saber que estava vendendo ilusão. Por outro lado, liberalização exacerbada, com base na “lei” deixando a sociedade a mercê de criminosos livres ampliando a insegurança pública. Com uma realidade conhecida, na qual sabe-se que um percentual elevado de beneficiados pelas “saidinhas” não retorna após o “benefício” concedido[2].

Mais grave ainda: o mesmo Estado que diz proteger a sociedade não protege as vítimas, não controla as facções, não investe em inteligência e não assume suas responsabilidades. Prefere legislar sob comoção, empurrando o país para soluções simbólicas que não alteram a realidade.

A recente mudança legal pode satisfazer o clamor popular momentaneamente!? Mas se for usada como troféu político, será apenas mais um capítulo da farsa. Lei não substitui Estado presente. Proibição não substitui governança. Retórica não substitui política pública.

E há um perigo ainda maior, raramente dito: quando a execução penal passa a ser moldada pelo humor social e pela conveniência eleitoral, abre-se a porta para a normalização do arbítrio. Hoje se relativiza um direito porque “o preso não merece”. Amanhã relativiza-se outro porquê “a sociedade exige”. Esse caminho não leva à segurança leva ao autoritarismo seletivo.

O Brasil precisa decidir se quer segurança pública de verdade ou apenas narrativas confortáveis. Porque segurança pública séria exige decisões impopulares, investimento pesado, controle de fronteiras, fortalecimento das Forças Armadas e organismos de segurança pública, enfrentamento das facções e criminalidade organizada, ruptura com a cultura da irresponsabilidade institucional e da impunidade, combate a corrupção, e, sobretudo, coragem para admitir falhas.

Enquanto isso não acontece, o ciclo se repete: o Estado falha, a política explora, a sociedade se frustra e o crime organizado avança. A conta chega sempre para o cidadão comum. Nunca para quem legisla mal, administra pior, julga de forma parcial[3] e discursa melhor.

Chega de cinismo. Segurança pública não é marketing eleitoral.
É dever constitucional. E o Brasil está falhando miseravelmente em cumpri-lo.


[1] Coronel da res da Brigada Militar e Especialista em Segurança Pública (PUCRS)

[2]https://www.gazetadopovo.com.br/republica/quase-3-mil-detentos-nao-retornaram-prisao-saidinha-fim-ano/ e https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/01/02/saidinha-natal-fuga.ghtml

[3] A Justiça, para ser legítima, deve ser imparcial quanto a interesses e preconceitos, assegurar um processo no qual os argumentos sejam efetivamente ouvidos e proferir decisões racionalmente fundamentadas, aplicando a lei de modo igualitário e garantindo os direitos fundamentais (FULLER; WALDRON; HABERMAS; ALEXY; FERRAJOLI).

Governo do RS analisa impacto da lei que autoriza o pagamento retroativo de benefícios a servidores

Governo do Estado está buscando quantificar o impacto da lei que autoriza o pagamento retroativo de benefícios que haviam sido suspensos durante a pandemia de Covid-19

Taline Oppitz Correio do Povo

O governo do Estado está trabalhando em levantamento para quantificar o impacto da sanção, pelo presidente Lula (PT), nesta semana, da lei que autoriza o pagamento de benefícios retroativos para servidores públicos que haviam sido suspensos durante a pandemia da Covid 19. A sanção foi publicada no Diário Oficial da União na última terça-feira. A legislação permite, desde que haja disponibilidade prevista na proposta orçamentária, que estados e municípios realizem os pagamentos, a servidores públicos, de benefícios como anuênio, triênio, quinquênio, sexta-parte, licença-prêmio, entre outros. Apesar de estarmos em ano de eleições gerais.

Segundo a secretaria estadual da Fazenda, está em curso uma análise dos impactos da iniciativa por aqui. “Até o momento, não há definição sobre valores ou aplicação prática, pois os cálculos e análises técnicas ainda estão em andamento”, diz nota enviada pela pasta em resposta ao pedido da coluna. O congelamento dos valores foi uma das exigências, feitas pelo governo federal, para liberar auxílio financeiro a estados e municípios durante a pandemia. À época, foram vedadas ainda concessões, pelos governos estaduais e municipais, de adicionais por tempo de serviço.

Brigada Militar emite nota no caso Pelotas

A respeito da intervenção policial ocorrida na cidade de Pelotas, a Brigada Militar esclarece que, na madrugada desta quarta-feira (15/01), ao realizar buscas na área rural de Pelotas, após uma ocorrência de roubo a residência registrada na terça-feira (13/01), onde um caseiro foi feito refém por 36 horas, tendo três veículos e um reboque roubados, advém da seguinte dinâmica:

Na quarta-feira (14/01),na cidade de Guaíra no estado do Paraná, a polícia militar local, prendeu dois suspeitos do roubo, residentes em Pelotas, com idades de 20 e 21 anos, ambos com antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo, os quais estariam envolvidos no grave crime e na posse dos veículos roubados em Pelotas.

Em posse de informações recebidas da Polícia Militar do Paraná, a Brigada Militar planejou uma operação no local onde haveriam outros indivíduos envolvidos, com armas e veículos roubados. Durante a averiguação ao endereço os policiais militares se depararam com um homem portando uma arma de fogo, o qual não acolheu as ordens policiais, efetuando disparos contra a guarnição, estabelecendo confronto em que resultou na vitimada fatalmente.

O local foi imediatamente isolado e preservado para os trabalhos da perícia técnica. Com o indivíduo, foi apreendida uma arma de fogo, do tipo carabina semiautomática, além de aproximadamente R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólar.

A Brigada Militar informa que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou inquérito policial militar para apurar e esclarecer as circunstâncias do fato.

Brigada Militar

Estados Unidos da América, Venezuela, Brasil: crise, ação, crise e o vazio de liderança latino-americana

Marco Antonio Moura dos Santos[1]

A recente ação dos Estados Unidos em relação à Venezuela, conduzida sem coordenação com os países da América do Sul, revela mais do que um episódio diplomático isolado. Expõe, de forma contundente, a fragilidade estrutural da América Latina no sistema internacional e a ausência de uma liderança regional capaz de articular respostas coletivas.

O unilateralismo norte-americano não é novidade.[2] Como ensina Hans Morgenthau[3], potências agem conforme seus interesses quando não encontram contrapesos políticos ou institucionais. A questão central, portanto, não está apenas em “Washington”, mas no fato de que a região não foi vista como relevante ou indispensável no processo decisório.

A América Latina respondeu com silêncio, fragmentação e descoordenação. Não houve posicionamento conjunto, tampouco iniciativa de mediação regional. O MERCOSUL, que poderia e deveria atuar como espaço político estratégico, limitou-se à irrelevância institucional, confirmando seu esvaziamento como ator diplomático.

Nesse contexto, chama atenção a postura do Brasil. O governo e a diplomacia brasileira optou por cautela excessiva. Não liderou, não convocou e não articulou; pelo menos de forma pública. A tentativa de preservar um posição de equilíbrio (ficar em cima do muro) ocorreu ao custo do protagonismo regional.[4]

Nas relações internacionais, como lembra Raymond Aron[5], poder não se afirma por discursos, mas pela capacidade de moldar comportamentos. Quando a liderança não é exercida, ela simplesmente deixa de existir. E liderança não exercida não é reconhecida.

O episódio Estado Unidos-Venezuela deixa uma lição clara: onde não há liderança regional, há imposição externa. Se o Brasil pretende retomar seu papel histórico de articulador sul-americano, será necessário ir além da diplomacia retórica e do silencio, investir em liderança concreta, inclusive quando isso significar assumir riscos políticos e tensões internacionais. Do contrário, o continente continuará assistindo às grandes decisões globais do lado de fora da sala e arcando com suas consequências. 

Sem densidade política, o MERCOSUL torna-se um bloco irrelevante justamente nos momentos em que deveria cumprir sua função histórica: articular respostas regionais a crises internacionais; sob pena da América Latina continuar sendo objeto, não sujeito, das grandes decisões geopolíticas.


[1] Coronel Res da Brigada Militar e Especialista Integração e MERCOSUL (UFRGS)

[2] A postura dos Estados Unidos diante da Venezuela seguiu um padrão histórico: decisão unilateral, comunicação tardia aos parceiros regionais e enquadramento do tema como questão de segurança e política doméstica norte-americana, não como agenda multilateral.

[3] MORGENTHAU, Hans Joachim. Politics among nations: the struggle for power and peace. 7. ed. New York: McGraw-Hill, 2006. Hans Morgenthau é um dos principais formuladores do realismo clássico em relações internacionais, corrente segundo a qual os Estados atuam prioritariamente conforme seus interesses nacionais e a lógica do poder.

[4] Isso não significa irrelevância diplomática absoluta do Brasil, mas aponta uma perda de centralidade estratégica no continente.

[5] ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Tradução de Sérgio Bath. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.  Raymond Aron analisa as relações internacionais como um campo marcado pela assimetria de poder, pela inexistência de autoridade supranacional efetiva e pela centralidade da capacidade de influência real.

“Pede exoneração”, diz secretário após policial penal questionar promoções da categoria no RS

Publicado por marcel.horowitz Rádio Guaíba

O secretário de Sistemas Penal e Socioeducativo, Jorge Pozzobom, sugeriu exoneração a um agente da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC). A sugestão ocorreu em troca de mensagens nas redes sociais, após o servidor questionar as promoções da categoria no Rio Grande do Sul.

Na versão da pasta, a mensagem foi retirada de conversa particular, sendo descontextualizada. Para o Sindicato da Polícia Penal (Sindppen), esse caso exemplifica falta de diálogo institucional.

“Jorge Pozzobom não demonstra postura de secretário do Estado. Se não houver disposição ou capacidade de diálogo institucional, em uma pasta que envolve mais de 7 mil servidores e custódia superior a 50 mil pessoas, acredito que o próprio gestor deveria reavaliar sua permanência na função”, afirmou o presidente do Sindppen, Cláudio Dessbesell.

O que diz a Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo:

A Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo esclarece que a imagem reproduzida é de um recorte de uma conversa particular do secretário com um servidor em uma rede social, que foi tirada de contexto. O assunto em questão era a confirmação de cerca de 500 promoções funcionais na Polícia Penal e o chamamento de cerca de 1.000 servidores aprovados no último concurso público. O servidor não concordou com tais medidas, comemoradas pela imensa maioria da Polícia Penal. E a ponderação do secretário foi no sentido de que todo servidor, seja na iniciativa privada ou no público, não estando satisfeito precisa rever sua situação funcional.
Cabe destacar que as promoções na Polícia Penal têm ocorrido com regularidade, totalizando 3.335 promoções no período de 2019 a janeiro de 2026. Antes da promoção recém anunciada em janeiro de 2026 de 497 servidores, houve promoções em janeiro de 2025 de 333 servidores, dezembro de 2024 de 598 servidores, dezembro de 2023 de 366 servidores, julho de 2022 de 266 servidores, janeiro de 2022 de 471 servidores, maio de 2021 de 02 servidores e novembro de 2019 de 802 servidores.
Além disso, com a recente regulamentação da Polícia Penal, entre os avanços na legislação, está a ampliação do quadro de vagas funcionais da Polícia Penal. O aumento possibilita que o governo do Estado possa fazer novos chamamentos de aprovados em concurso público, qualificando ainda mais a instituição. Há, ainda, a reorganização das vagas existentes para o cargo de analista. Além disso, tal mudança permite que as promoções funcionais ocorram sem maiores dificuldades, uma demanda antiga da categoria.
Vale salientar, ainda, que nesta semana, o governo do Estado autorizou um chamamento histórico para a Polícia Penal, de cerca de mil novos servidores e que desde 2019, já foram nomeados 4.352 servidores para a instituição.