Polícia apreende roteador de internet por satélite em cela de presídio

Aparelho Starlink permite transmissão em alta velocidade para vários celulares, de forma simultânea. A central portátil foi encontrada em Charqueadas

Humberto Trezzi GZH

Em operação realizada pela delegacia de Lavagem de Dinheiro do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), em 27 de novembro, policiais civis realizaram buscas em presídio de Charqueadas e encontraram um aparelho de conexão via satélite Starlink. Ele é um roteador que propicia internet em alta velocidade, sem necessidade de antena de telefonia. É da empresa Space X, do bilionário Elon Musk e foi feito para funcionar em áreas sem sinal de telefonia.

O equipamento foi encontrado na cela de Lucas Muniz Sartori, preso na Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas. O Starlink funciona como uma espécie de central telefônica. Fornece internet banda larga, capaz de veicular vídeos em alta velocidade, para vários celulares, de forma simultânea. Custa de R$ 800 a 3,5 mil no mercado legalizado, mas dentro das cadeias deve custar muito mais.

Sartori está indiciado como traficante e idealizador de falsas rifas. É coproprietário de uma pequena empresa de transporte de Canoas, apontada pela Polícia Civil como responsável por trazer caminhões com cargas de drogas desde o Paraguai até a Região Metropolitana de Porto Alegre. Os entorpecentes eram comprados por facções rivais, em sistema de consórcio. Está também indiciado por rifas de carros de alto valor para dar aparência de legalidade ao dinheiro do tráfico de drogas. Sorteou um Camaro em 2024, com números a R$ 5,99.

Nas redes sociais, segundo a investigação, Sartori costumava ostentar o dinheiro que obtinha com a suposta venda de drogas: aparecia com maços de dinheiro, em viagens de barco com mulheres, e até em festas em casas noturnas, bancadas com o dinheiro do tráfico, onde painéis de LED exibiam seu nome.

Na cela de Sartori foram encontrados, além da antena Starlink, quatro celulares e porções de maconha.

O secretário estadual do Sistema Penal e Socioeducativo, Jorge Pozzobom, lamenta que esse tipo de equipamento tenha ingressado no sistema penitenciário e acredita que isso ocorreu por meio de drones, a nova tática usada pelos bandidos. Até para isso, a Polícia Penal adquiriu aparelhos antidrone para uso em 15 unidades prisionais. São similares aos usados na guerra da Ucrânia, mandam sinais que interceptam e derrubam o robô voador.

– Localizamos mais de 8 mil celulares direcionados para o sistema prisional gaúcho, desde que assumimos. Desses, 2 mil foram pegos antes de ingressar nos presídios, na área próxima – contabiliza Pozzobom.

Não é a primeira vez. Em junho de 2022, antes da gestão de Pozzobom, um aparelho semelhante foi apreendido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), considerada a mais segura do Rio Grande do Sul. Na descrição sobre características do equipamento, vendedores listam, por exemplo, que ele é seguro (“Impossível de ser rastreado, grampeado, quando a ligação é entre telefones da mesma marca”), robusto (“Possui proteção contra poeira e jatos de água”), durável (“Bateria dura até 5:30 horas de conversa ou 15:30 horas em standby”), permite uso por grupo (“Ideal para pequenos grupos. Comporta no máximo cinco pessoas”) e tem botão de pânico (“Ative o botão e emita SMS e e-mail para até 5 pessoas contendo sua localização”)

Pozzobom admite que a instalação do sistema de bloqueador na Penitenciária Modulada de Charqueadas está atrasada e diz que isso está sendo cobrado da empresa que firmou o contrato com o governo estadual.

Em nota, a Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo informa que o contrato firmado com a empresa responsável pelos bloqueadores prevê bloqueio “de todas as frequências utilizadas pelo Wi-Fi e suas variações”. Ou seja, o sistema contratado precisa ser capaz de neutralizar tanto sinais de telefonia quanto redes Wi-Fi que possam ser utilizadas de forma ilegal.

No caso específico da Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas, os bloqueadores ainda não estão ativos, justamente em razão de atrasos na entrega e pendências técnicas que seguem sendo cobradas de forma rigorosa pelo Estado. Enquanto o sistema não é instalado e aprovado em conformidade com o contrato, a unidade permanece em fase de fiscalização e reforço operacional.

A secretaria ressalta que desde 2019 foram investidos R$ 1,4 bilhão no sistema prisional gaúcho, sobretudo em novas penitenciárias, que resultaram em 12 mil vagas criadas. Outros R$ 210 milhões foram aplicados para modernizar equipamentos de segurança da Polícia Penal. Isso inclui  scanners corporais e três kits completos de tecnologia antidrone, que colocam o RS entre os estados pioneiros no país no uso do dispositivo, armamentos, coletes, uniformes e viaturas.

Policial militar morre após acidente de trânsito em Gravataí

Matheus Teixeira de Oliveira, de 30 anos, era soldado do 17º BPM

Um soldado da Brigada Militar morreu, na noite deste domingo (7), após um acidente de trânsito na RS-118, em Gravataí, na Região Metropolitana. 

A vítima foi identificada como Matheus Teixeira de Oliveira, de 30 anos, que voltava do trabalho para casa quando o Chevrolet Cobalt que dirigia colidiu contra a pilastra do viaduto sob a Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira, no km 19 da rodovia.

O acidente ocorreu por volta das 19h e provocou bloqueio parcial e lentidão no trecho. Matheus foi socorrido e levado ao Hospital Dom João Becker, mas não resistiu. 

Ele era integrante do 17º Batalhão de Polícia Militar, onde atuava no policiamento da zona norte de Porto Alegre. O soldado ingressou na corporação em 2018. As circunstâncias da colisão ainda estão sendo apuradas.

Em nota, a Brigada Miltitar disse que “se solidariza com familiares, amigos e irmãos de farda, consternados neste momento de dor.”

Nota oficial da Brigada Militar

A Brigada Militar comunica, com profundo pesar, o falecimento do Soldado Matheus Teixeira de Oliveira, ocorrido na noite deste domingo (07/12), em acidente de trânsito enquanto voltava do trabalho para a casa.
O Soldado tinha 30 anos de idade, ingressou na corporação no ano 2018, e estava lotado no 17º Batalhão de Polícia Militar.
O horário e local dos atos fúnebres serão informados posteriormente.
A Brigada Militar se solidariza com familiares, amigos e irmãos de farda, consternados neste momento de d
or.”

Governo encaminha projeto de fechamento da EsFES

Escola da Brigada Militar pode ser transferida para Porto Alegre

Por:Guilherme Baptista Jornal Ibiá

Um projeto enviado pelo Governo do Estado para a Assembleia Legislativa determina a extinção da Escola de Formação e Especialização de Soldados de Montenegro – a EsFES. Ela seria substituída por um centro de treinamento policial, a ser estruturado nos termos de uma lei complementar. As vagas remanescentes da EsFES de Montenegro seriam remanejadas para a estruturação da escola de Porto Alegre.

Alunos-soldados que chegam anualmente em Montenegro também movimentam a economia local


O projeto, assinado pelo governador Eduardo Leite em 28 de novembro deste ano, dispõe sobre a “Organização, a Estrutura Básica e o efetivo da Brigada Militar e dá outras providências”. A proposta ingressou em caráter de urgência e segue sob análise, podendo ser votado ainda neste ano. “Precisamos nos mobilizar. É fundamental pressionar, dialogar e acompanhar a tramitação para que seja aprovado um projeto de lei que garanta a permanência da EsFES em Montenegro”, destaca a vereadora Josi Paz, que esteve na Assembleia Legislativa verificando a situação da proposta.

“A EsFES é formação, oportunidade, segurança e desenvolvimento para a região”, completa.
A possibilidade de fechamento da Escola da Brigada em Montenegro pegou a todos de surpresa. O comando geral da BM no Estado, logo após a recuperação da estrutura da escola, que sofreu danos devido à enchente de maio de 2024, tinha garantido a permanência, destacando a importância da EsFES, no ano que completava 50 anos. A previsão era do ingresso de mais 300 alunos-soldados no início de 2026.

Vagas remanescentes da EsFES de Montenegro seriam remanejadas para Porto Alegre


“Vamos marcar uma reunião com o Governo do Estado”, informou o presidente da Câmara, vereador Talis Ferreira, sobre a necessidade de mobilização. Já o prefeito Gustavo Zanatta mudou a agenda e se deslocou para Porto Alegre no início da manhã desta quarta-feira, 3, para verificar as medidas que podem ser tomadas na busca por manter a EsFES em Montenegro. “Já estamos mobilizados”, frisa o vice-prefeito Cristiano Braatz. “O fechamento da EsFES seria extremamente prejudicial para Montenegro e a região. Não só na área da segurança, mas também para a economia local, já que a escola da Brigada movimenta o comércio no setor imobiliário, lojas e supermercados”, completou Cristiano, sobre unir forças para manter a EsFES em Montenegro.

Nesta quinta-feira, 04, a mobilização continua, com mais reuniões e contatos com deputados e representantes do Governo do Estado. Em um primeiro momento se busca evitar que seja votado nos próximos dias, permitindo uma melhor análise até depois do recesso para que seja retirado o artigo 41 do projeto de lei sobre a extinção da EsFES Montenegro. O deputado estadual Guilherme Pasin (PP) protocolou um ofício à Casa Civil solicitando a permanência da EsFES em Montenegro, justificando que o município abriga uma das quadro unidades de formação de soldados do Estado, ao lado de Porto Alegre, Osório e Santa Maria, e que a escola é reconhecida pelo histórico de excelência.

No último curso se formaram 281 soldados, em julho

O Julgamento de Orestes e o Voto de Minerva: a Nova Lei do Empate

“Que o sangue pare de clamar por sangue.” — Ésquilo, Oresteia

A decisão de Atena na tragédia grega ressurge no direito brasileiro, reafirmando que, diante da dúvida, deve prevalecer a razão e a clemência.

Tudo começou com um vento parado.

Agamêmnon, rei de Micenas e comandante das tropas gregas, via sua frota imobilizada antes de partir para a guerra de Troia. Os deuses exigiam um preço para soprar as velas: a vida de sua filha, Ifigênia. O pai obedeceu. O sacrifício foi consumado, os ventos voltaram a soprar, a guerra foi vencida, mas a casa de Atreu ficou encharcada de culpa. Nenhuma vitória é suficiente quando o sangue dos inocentes clama dos altares.

Anos depois, o rei regressa vitorioso. E é recebido não com aplausos, mas com a espada da própria esposa. Clitemnestra, irmã de Helena de Troia e mãe da menina sacrificada, mata Agamêmnon com a ajuda do amante, Egisto. Não age por ambição, mas por vingança. O crime gera outro crime, e o fio da tragédia volta a se esticar.

É então que o destino recai sobre Orestes, filho de ambos. Educado no culto da honra e da reparação, ele mata a mãe e o amante, cumprindo o dever de vingar o pai. Mas o preço é terrível: matar a própria mãe é violar o sangue, e contra esse tipo de culpa não há perdão entre os homens nem entre os deuses. As Erínias, divindades da vingança, passam a persegui-lo implacavelmente, atormentando-o onde quer que vá.

Orestes encontra refúgio no templo de Apolo, que o conduz até Atena, para ser julgado diante do primeiro tribunal da história: o Areópago. Doze cidadãos, escolhidos a dedo, escutam seu destino. Seis votam pela condenação, seis pela absolvição. O empate paralisa o tempo; é a própria humanidade hesitando entre o dever e a piedade.

É nesse instante que surge Palas Atena, deusa da sabedoria e da prudência. Ela não grita nem se impõe; fala baixo, mas com firmeza. Proclama que, na dúvida, deve prevalecer a clemência. E absolve Orestes. Aquele voto, simples, sereno, racional, muda para sempre a forma como o homem entende a justiça.

Mais tarde, os romanos chamariam essa decisão de “voto de Minerva”, porque Minerva é o nome latino de Atena, a deusa da sabedoria para um povo que fundou as bases do nosso próprio direito. E é daí que vem a expressão que atravessou os séculos: o voto de Minerva é o voto da razão sobre a fúria, da prudência sobre a vingança.

A tragédia termina com a transformação das Erínias em Eumênides — as “benfazejas”. A justiça, antes movida pela ira, torna-se racional. O sangue deixa de clamar por sangue. E o tribunal dos deuses cede lugar ao tribunal dos homens. É o nascimento simbólico do direito.

Dois milênios depois, essa mesma lição ressurge, discretamente, em uma norma jurídica. A Lei nº 14.836, de 2024, alterou o artigo 615 do Código de Processo Penal para dizer, com todas as letras, que “havendo empate em julgamentos penais, prevalecerá a decisão mais favorável ao indivíduo imputado”. Mesmo se o julgamento ocorrer com ausências ou impedimentos, o resultado deve ser proclamado de imediato.

Curiosamente, o Código de Processo Penal Militar, desde 1969, já dizia o mesmo: “no caso de empate, prevalecerá a decisão mais favorável ao réu.” A Justiça militar, tantas vezes tida por severa, guardava desde sempre a semente da sabedoria antiga.

Ao adotar agora essa regra no processo penal comum, o legislador reafirma uma verdade que atravessa os séculos: quando há dúvida, o Estado deve escolher a prudência. A justiça não é o brado da multidão, mas o silêncio ponderado da razão.

No fundo, a nova lei apenas reescreve, em linguagem jurídica, o gesto de Atena no Areópago. A deusa continua votando, desta vez nas páginas do Diário Oficial. E seu voto, ontem como hoje, recorda que o Direito não nasceu da vingança, mas da dúvida. E que, diante do empate, é sempre Minerva quem decide.

Corpo de Bombeiros do RS realiza formatura de 322 sargentos que atuarão nas unidades da corporação

O curso se iniciou no dia 30 de maio deste ano e cumpriu o planejamento de ensino de 495 horas-aula; a solenidade foi realizada no campus da Ulbra, em Canoas

Fernanda Bassôa Correio do Povo

Aconteceu nesta sexta-feira, no campus da Ulbra, em Canoas, a formatura de habilitação à promoção para a graduação de 2º sargento do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul. Com 322 formandos, o curso se iniciou no dia 30 de maio de 2005 e cumpriu o planejamento de ensino de 495 horas-aula, sendo 240 horas ministradas na modalidade de ensino à distância e 225 presencialmente, sendo a parte presencial dividida em três etapas.

As disciplinas abrangeram o conhecimento técnico-profissional general e conhecimento técnico-profissional específico na temática do bombeiro militar, destacando-se as disciplinas de prevenção de incêndio, busca de salvamento, tática de combate a incêndio e defesa civil. A partir da habilitação, os militares passarão a integrar as diversas unidades do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, representando um incremento de recursos humanos qualificado e responsável.

O Comandante do Corpo de Bombeiros Militar do RS, coronel Julimar Fortes Pinheiro, iniciou seu discurso resgatando as origens da corporação, falando sobre o fundamento de que o Estado tem o dever inalienável de proteger a vida e o bem público. “Alicerçadas na conduta e na coragem de combatentes, que ousaram enfrentar as agruras do fogo. Valendo-se de valores e princípios, o Corpo de Bombeiros Militar, se estabelece como uma instituição de maior credibilidade para a sociedade brasileira.”

O coronel enfatizou que o Corpo de Bombeiros é a prova viva que o tempo não apaga os verdadeiros valores. “O tempo, os engrandece e fortalece a coragem, a disciplina, a humanidade, a excelência e a dedicação absoluta à vida. Hoje comemoramos mais um momento de vitórias para nossa corporação. Todos aqui já são vitoriosos porque escolheram estar entre os melhores. E venceram todos os desafios para concretizar seus sonhos e objetivos pessoais quando ingressaram nas fileiras do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio Grande do Sul.” Por fim, exaltou que todos os militares presentes foram aprovados em todas as etapas do curso e hoje, conjuntamente, podem comemorar mais esta vitória.

Brigada Militar projeta novos PMs nas ruas a partir de setembro de 2026

Estimativa considera o cronograma de formação e o estágio operacional dos alunos-soldados

Airton Lemos GZH

Após o anúncio do chamamento de 1,2 mil novos soldados para a Brigada Militar, a corporação já trabalha com uma projeção concreta: os primeiros policiais formados devem chegar às ruas entre o fim de setembro e o início de outubro de 2026. Segundo o comandante-geral, coronel Cláudio Feoli, a estimativa considera o cronograma de formação e o estágio operacional dos alunos-soldados.

Os 800 primeiros convocados iniciam o curso na segunda quinzena de janeiro. Com oito meses de aulas, a formatura está prevista para o fim de setembro ou início de outubro. Outros 400 começarão a formação em abril e só devem reforçar o policiamento em 2027. Antes disso, todos passam por um estágio de 30 dias.

Distribuição só será definida no fim do curso

Ainda não há definição sobre quais cidades receberão o novo efetivo. A corporação trabalha com critérios técnicos que só podem ser aplicados após a conclusão da formação.

— Ao final do curso nós avaliamos todo um contexto técnico de distribuição, inicialmente preenchendo aqueles municípios que têm um efetivo muito baixo em relação à sua população e, a partir daí, os de maior índice de criminalidade — conclui.

Segundo Feoli, a lógica é: primeiro, reforçar municípios com efetivo baixo em relação à população; depois, priorizar localidades com maiores índices de criminalidade. A avaliação depende de indicadores que variam ao longo do ano, o que impede antecipar o mapa de distribuição.

Oito meses de formação e protocolos atualizados

A formação dos novos soldados inclui disciplinas de Direito, Direitos Humanos, técnica policial, defesa pessoal, uso progressivo da força e aplicação de armas letais e não letais. Eles também recebem treinamento em policiamento comunitário, proteção escolar, atendimento a grupos vulneráveis e procedimentos operacionais padrão.

Déficit ainda é grande, mas vem diminuindo

A entrada dos novos policiais melhora o quadro, mas não resolve o déficit histórico. Feoli lembra que, na década de 1990, a Brigada contava com cerca de 30 mil policiais.

Com o chamamento anunciado, a projeção é que o efetivo alcance 20 mil PMs em 2026 — número ainda distante do patamar de 30 anos atrás, embora superior ao registrado nos últimos anos.

Além dos soldados, a corporação prevê o chamamento de 120 alunos-oficiais em 2026, cujo curso tem duração de dois anos.

Tecnologia e gestão por resultado para compensar defasagem

Mesmo com menor efetivo que no passado, a Brigada afirma que tem conseguido reduzir indicadores de criminalidade com o uso de ferramentas de gestão. Dados de incidência de ocorrências orientam a alocação de equipes, horários de reforço e distribuição de viaturas, numa estratégia que a corporação utiliza para otimizar recursos humanos e materiais.

Do faro ao patrulhamento: como é a formação da tropa canina da Brigada Militar em Passo Fundo

Canil do 3º Batalhão de Polícia de Choque conta com 12 cães que atuam em diferentes ocorrências. Setor existe desde a década de 1980

Tatiana Tramontina GZH

O trabalho policial em Passo Fundo também tem quatro patas, faro apurado e disposição que impressiona até quem vive a rotina da segurança pública. É na sede do 3º Regimento de Polícia Montada (3º RPMon), no bairro Lucas Araújo, que funciona o canil do 3º Batalhão de Polícia de Choque (3º BPChq). 

Ativo desde a década de 1980, hoje o espaço reúne 12 cães treinados para atuar em diferentes ocorrências: do faro de drogas e armas a ações de controle de distúrbios, rebeliões em presídios e patrulhamento tático motorizado. Nas linhas de Controle de Distúrbios Civis (CDC), por exemplo, os cães ficam atrás dos escudos, reforçando a segurança das equipes.

— Os cães são adquiridos pelos próprios militares. Depois de um ano, eles entram no que chamamos de carga da Brigada Militar e, a partir daí, é que fazem parte mesmo do plantel canino — explica o soldado Anderson da Costa, integrante mais antigo do canil.

É o trabalho diário com a tropa canina que forma a parceria com os policiais e vai muito além do trabalho operacional. Cada animal tem nome, ficha veterinária atualizada, rotina rígida de alimentação e treinamento.

Apesar da estrutura de 45 anos, o espaço está em constante reforma. São os próprios policiais que cortam a grama, limpam o pátio, organizam o estoque de ração e realizam pequenos reparos. Os espaços onde os cães dormem são higienizados diariamente, e cada animal recebe duas refeições — somando cerca de 700g de ração por dia.

Todos os dias, no turno da tarde, os cães participam do patrulhamento tático motorizado, reforçando a presença da polícia nas ruas de Passo Fundo. 

Como nasce um cão policial

A especialização dos animais começa cedo: os filhotes chegam ao canil com cerca de 45 dias. Nesse período, passam por uma análise de comportamento, o que vai definir se seguirão carreira e, mais tarde, a qual modalidade de atuação serão direcionados. 

Nem todos avançam. Alguns demonstram medo de barulhos, insegurança com ambientes novos ou dificuldade de socialização. Quando isso acontece, os cães são doados para famílias da comunidade. 

— Vai ter um cão que come mais rápido, outro que briga para comer e come mais. Esses, por exemplo, são cães que já vamos direcionando (para treinamentos), porque são cães mais seguros, com mais personalidade. No caso de adoção dos que não têm aptidão, nós sempre analisamos a família para onde esse animal vai e seguimos acompanhando depois também — afirma o soldado. 

A equipe é composta em sua maioria por cães da raça pastor-belga-malinois, conhecidos no meio policial pela resistência, energia elevada, facilidade de aprendizado e determinação de trabalho: 

— Essa raça é a 01 de cães de polícia. Eles têm mais aptidão, não têm tanta doença e são mais viris. 

Alguns animais se especializam exclusivamente em faro, outros em guarda e proteção, e há ainda os cães de “duplo emprego”, capazes de atuar tanto no policiamento motorizado quanto na busca por armas e drogas, por exemplo. 

Entre os nomes que formam a equipe estão Mago, Thanos, Bonnie, Honey, Laika, Apache, Kratos, Hanna, Athena, Sniper, Lord e Venon. Os mais jovens do grupo são Hanna e Sniper, com sete meses de idade.

Cão de faro é um cão viciado?

Tatiana Tramontina / Agencia RBS
Treinamento de faro é motivado por brincadeira e recompensa.Tatiana Tramontina / Agencia RBS

Os cães são treinados para reconhecer desde drogas sintéticas, como êxtase e cocaína, até substâncias naturais. Segundo Anderson, ao contrário do que muitos imaginam, o cão de faro não é “viciado” na substância que busca, mas sim motivado por brincadeira e recompensa.

O treinamento de faro segue um método simples, mas altamente eficaz. Para treinar os cães, os policiais utilizam uma caixa de madeira com um furo no meio, onde a droga é colocada dentro de um suporte seguro. Antes da busca, o instrutor mostra para o cão a bolinha. 

Guiado pelo cheiro, o animal fareja a caixa e, ao localizar o odor da substância, ele se senta imediatamente. O gesto é um aviso para “alvo encontrado”. A resposta correta garante ao animal a bolinha, sua tão esperada recompensa. 

— Muito pelo contrário do que as pessoas acham, ele não é um cão viciado. Ele é o cão mais feliz do mundo. Apesar de estar trabalhando, para ele, aquilo é uma brincadeira.

Governador Eduardo Leite autoriza nomeação de 1,2 mil soldados da Brigada Militar

Serão chamados 800 policiais em janeiro e outros 400 em abril de 2026

Júlia Ozorio GZH

O governador Eduardo Leite autorizou a nomeação de 1,2 mil novos soldados aprovados em concurso da Brigada Militar. De acordo com o anúncio, realizado nesta quinta-feira (4) na rede social X, serão chamados 800 policiais em janeiro, e outros 400 em abril do ano que vem.

A partir da convocação, os candidatos aprovados realizarão o Curso Básico de Formação Policial Militar (CBFPM), ficando aptos para reforçar a segurança pública do Estado. 

Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do RS, esta foi a primeira convocação do certame, que foi aberto em março e homologado em 21 de novembro. O edital tem validade de dois anos, seguindo ativo até 21 de novembro de 2027, e pode ser prorrogado por igual período. 

Atualmente, o processo seletivo está na etapa de investigação social e análise da vida pregressa dos candidatos aprovados. Aqueles que tiverem a documentação aprovada nesta fase, poderão iniciar o curso de formação, que deve durar cerca de 10 meses.

Conforme a Brigada Militar, a previsão é de 500 policiais sejam destinados à Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Graduados (EsFAG) de Porto Alegre e outros 300 à Escola de Formação e Especialização de Soldados (EsFES) de Montenegro, no Vale do Caí.

“Reposição contínua”

Na publicação de anúncio, Leite também ressaltou que a medida é uma continuidade da política de reposição do efetivo, iniciada em seu primeiro mandato:

“Mais um passo de continuidade na política que adotamos ainda no meu primeiro ano de mandato, em 2019, com uma rotina de reposição de efetivo das forças de segurança, para dar previsibilidade às instituições e manutenção daquilo que temos de mais valioso na área: um corpo robusto de homens e mulheres vocacionadas que se entregam à missão de proteger os gaúchos”, escreveu o governador no post. 

O secretário Mario Ikeda, da SSP, salientou que além da reposição do efetivo, o Estado tem investido em equipamentos para as forças de segurança, como os novos helicópteros para a Brigada Militar e para o Corpo de Bombeiros Militar (CBM).

— Todos esses equipamentos estão ajudando a fazer a diferença, dando condições de trabalho ainda melhores para a nossas instituições e proporcionando ainda mais segurança e serviços de qualidade a nossa população — ressaltou.

Veja a íntegra da nota de Leite

Mais Segurança Pública para os gaúchos! Acabo de autorizar o chamamento de 1.200 novos soldados da Brigada Militar, aprovados em concurso para iniciarem os cursos de formação. Serão 800 em janeiro e mais 400 em abril de 2026.  

Mais um passo de continuidade na política que adotamos ainda no meu primeiro ano de mandato, em 2019, com uma rotina de reposição de efetivo das forças de segurança, para dar previsibilidade às instituições e manutenção daquilo que temos de mais valioso na área: um corpo robusto de homens e mulheres vocacionadas que se entregam à missão de proteger os gaúchos. 

 Nosso governo já foi o primeiro em décadas a terminar o mandato, em 2022, com mais efetivo do que tinha quando começou. E nesse segundo ciclo de governo vamos renovar essa marca, determinados a investir para promover um Estado cada vez mais seguro para se viver e ser feliz.

Brigada Militar realiza o III Congresso dos Comandante

A palestra de abertura, pela manhã, foi proferida pelo Subcomandante-Geral da Brigada Militar, coronel PM Douglas da Rosa Soares. Na sequência, o Delegado Mário Souza abordou o tema da Dissuasão Focada.

À tarde, a primeira palestrante foi a Promotora Alessandra Moura, que abordou o tema: “Apresentação de ocorrências, peculiaridades e necessidades para manutenção da prisão”. Em seguida, os participantes prestigiaram a palestra do Chefe do Estado-Maior da Brigada Militar, coronel PM Luigi Gustavo Soares Pereira.

Ao findar os trabalhos do dia, o Comandante-Geral, coronel PM Cláudio dos Santos Feoli, ao lado do Coronel PM Douglas, fez o encerramento do III Congresso dos Comandantes.

“O Comando da Brigada Militar agradece a cada um dos senhores comandantes pelo trabalho realizado integralmente com todos os brigadianos e brigadianas. Saibam que estamos cientes dos desafios e dos riscos que cada um sofre durante o policiamento diário para cumprir o papel primordial de uma Polícia Militar, que é a manutenção da ordem pública. Papel este que os senhores cumprem com maestria como evidenciam os baixos índices de criminalidade no Rio Grande do Sul,” destacou o Comandante-Geral da Brigada Militar.

Texto: jornalista Eliege Fante, servidora civil na PM5/BM

Fotos: Sd Renan PM5

A nova Guarda Nacional e o velho risco da centralização: por que a proposta acende um alerta democrático no Brasil

Marco Antônio Moura dos Santos[1]

O Brasil não precisa de um governo federal armado. Precisa de um federalismo forte, polícias estaduais fortalecidas, integração inteligente e limites claros ao poder estatal. Essa é a única trajetória compatível com liberdade, estabilidade e democracia.

Em meio ao avanço das facções criminosas, crises estaduais persistentes e desastres que expõem a vulnerabilidade do país, ressurgem várias propostas milagrosas, dentre elas a criação da Guarda Nacional Civil[2], uma força ostensiva federal “civil” destinada a atuar em qualquer região do Brasil, sob comando direto do governo federal. A ideia, apresentada como solução moderna e eficiente, reacende um debate sensível: o risco da concentração do poder armado nas mãos da União e suas repercussões para a democracia.  Desde a década de 1930, tentativas de criar uma polícia ostensiva federal emergem em momentos de centralização política.

Centralizar as ações policiais sob comando federal não resolve os problemas estruturais de gestão, inteligência, integração e financiamento da segurança pública. A Constituição de 1988 distribuiu funções policiais de forma clara: aos Estados a polícia ostensiva e a polícia judiciária nos crimes de sua competência; à União a atuação em crimes federais. Essa escolha, saudada pela sociedade, foi construída após estudos e décadas de abusos do poder central, frente as Unidades Federadas.  Essa medida significa permitir que uma única autoridade controle o aparato armado em todo o território nacional, um risco real para o pacto federativo, o qual serve como núcleo da democracia brasileira.

 O federalismo não é simples divisão administrativa; ele é, acertadamente. um mecanismo de limitação do poder. Juristas como o saudoso Afonso da Silva[3] e, até mesmo, Gilmar Mendes[4] explicam que a distribuição do poder coercitivo entre União e Estados é uma garantia contra hegemonias políticas. Criar uma Guarda Nacional Civil traz uma perspectiva de romper esse equilíbrio e reduzir a autonomia dos Estados.

Há um risco político presente, qual seja de não termos como impedir o uso ideológico dessa força federal.Qualquer governo, de qualquer espectro, que controle uma força ostensiva nacional poderá utilizá-la para fins políticos. Entre os riscos: intervenções informais em Estados não alinhados politicamente, repressão seletiva, uso eleitoral ou ideológico da força e intimidação de grupos sociais. A história brasileira fornece exemplos claros de “uso político” das forças armadas e policiais, ou do não emprego das Insituições.[5]

Dworkin[6] argumenta que um Estado só é legítimo quando age conforme princípios, e não por conveniências políticas! Centralizar a polícia viola a integridade democrática e fragiliza a igualdade política. Alexy[7] afirma que a medida é desproporcional, pois há alternativas menos invasivas. Ferrajoli[8] sustenta que a concentração do poder armado é incompatível com o garantismo democrático, enquanto Bobbio[9] adverte que Estados modernos tendem a expandir seu poder sob pretexto de segurança.

A criação de uma força federal ostensiva gera uma série de impactos, sem resolver problemas cruciais: conflitos de comando entre União e Estados, sobreposição de estruturas, aumento de custos, “militarização” ampliada e risco de instrumentalização doutrinária. Mas se não é com a centralização, então qual é a solução? A resposta passa por fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), as polícias estaduais, a integração entre bancos de dados, o Sistema de Inteligência e a atuação cooperativa, não hierárquica.[10] Segurança pública eficaz exige Estado coordenado e eficaz, não Estado centralizado.

A proposta “parece atraente”, mas representa riscos à democracia e ao pacto federativo. Ela amplia o poder armado do governo central, fragiliza autonomias estaduais, cria vulnerabilidades de uso político e oferece soluções superficiais para problemas complexos.  

Modernizar a segurança pública não significa concentrar poder, significa distribuí-lo de forma constitucional, eficiente e democrático.


[1] Coronel da Res da Brigada Militar e Especialista em Segurança Pública (PUCRS)

[2]https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/01/fundacao-do-pt-propoe-criar-guarda-nacional-civil-para-gradativamente-substituir-atuacao-de-militares-em-glo.

[3] SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros.

[4] MENDES, Gilmar; COELHO, Inocêncio Mártires; GONET, Paulo Gustavo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva.

[5] OEA diz que atuação da PRF na eleição ‘gerou inquietação e preocupação’ In: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63479375. Acessado em 03/12/2025

[6] DWORKIN, Ronald. Levando os Direitos a Sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002 (1977) e O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007 (1986).

[7] ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2008 (1985).

[8] FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002 (1989).

[9] BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

[10] Registro a colaboração de um amigo e especialista em Segurança: a centralização mata o debate democrático tão importante numa federalização. Este é o principal mérito de uma federação e por isso ela se demonstrou o modelo mais adequado ao longo da história da civilização que é ouvir a todos e acolher sempre as melhores ideias. Mantendo assim o diálogo como caminho!”